O texto que se segue foi publicado neste blog em 2 de Novembro de 2008. O texto no seu essencial mantêm-se actual. O comentário que então fez o anónimo sobre as questões familiares, piorou. Leiam tudo com muita atenção e depois tirem as conclusões que entenderem.
"Desde que saiu a notícia no DN, não param os apelos para que explique aqui o que se passa em Elvas para estar numa posição tão baixa. Vou tentar explicar com um exemplo, como se forma o dito ranking e depois cada um fará o seu julgamento.
Vamos então a isto e tomemos como referência a disciplina mais crítica que é a Matemática: Escola 1 – que pode bem ser a Esc. Sec. de Campo Maior – imaginemos que se apresentaram a exame nacional 20 alunos e que houve 4 que tiveram nota negativa. Na prática houve 20 % de reprovações. Como nesta localidade normalmente não há alunos externos, podemos afirmar que todos os 20 alunos estavam matriculados na escola. Escola 2 – que pode ser a Esc. Sec. de Elvas – ao mesmo exame apresentaram-se 150 alunos e houve nas pautas 45 alunos reprovados o que representa 30 % de reprovações. Dos 150, 30 eram alunos externos (alunos que abandonaram o ensino há uns anos e que voltaram para fazer o exame, alunos das escolas profissionais e alunos de colégios particulares). Escola 3 – escola da cidade de Setúbal (não menciono o nome). Ao referido exame compareceram 400 alunos, 200 dos quais reprovaram. Ou seja houve 50 % de reprovações. Escola 4 – Colégio particular de Lisboa ou Porto – fizeram o exame 200 alunos e ninguém reprovou. Perante os números apresentados, o ranking à disciplina de Matemática ficou assim ordenado: 1º - Colégio partícula (de Lisboa ou Porto) – 0 % de reprovações 2º - Escola Sec. de Campo Maior – 20 % de reprovações 3º - Escola Sec. de Elvas – 30 % de reprovações 4º - Escola Sec. de Setúbal – 50 % de reprovações. Ora bem, perante os números não há dúvidas absolutamente nenhumas. É só ler! Mas será que as coisas serão assim tão lineares? NÃO e NÃO! Analisemos então os números de uma maneira mais profunda e com outros olhos.
1 – O Colégio de Lisboa ou Porto – Quem é que frequenta o referido colégio? De certeza que não são os filhos do cidadão comum e muito menos os filhos das famílias problemáticas. São alunos oriundos das classes média alta e alta que têm recursos para frequentar esse colégio. São filhos de famílias estruturadas, que lhes podem dar um acompanhamento relativamente bom e se for preciso ainda têm professores pagos à hora para os acompanharem ainda melhor. Mais, haverá mesmo assim alguns alunos que mesmo que provenham das classes altas e estejam “desalinhados” com a maioria. Esses, a meio do ano são convidados a sair para uma escola pública. Ora bem, os que vão a exame oferecem garantias absolutas de sucesso. Se houver algum “chumbo” foi mesmo por azar.
2 – Escola Secundária de Campo Maior – Quem frequenta a escola? São os filhos de pessoas normalíssimas e que vivem num meio pequeno e em que toda a gente conhece toda a gente, incluindo os professores. Neste tipo de escolas, a proximidade da escola, professores e famílias é muito grande o que favorece a situação. È obvio que a percentagem dos chumbos será normal e para os quais podem ter contribuído o próprio aluno, a família deste e o professor que não soube ou não pode ou “não quis” resolver estas situações.
3 – Escola Secundária em Elvas – Escola típica de uma pequena/média cidade onde impera a heterogeneidade, ou seja, onde há de tudo um pouco: filhos de famílias estruturadas, de famílias que de família só têm o nome, de classes sociais e culturais muito diferentes, etc. Se por um lado a cidade é relativamente pequena para colher alguns benefícios, por outro lado é já suficientemente grande para ter alguns vícios próprios destas cidades. Além disso a escola recebe alunos para os exames nacionais (os ditos externos) que nunca ali estiveram, mas que tem que arcar com a responsabilidade das classificações que tiverem.
4 – Escola Secundária em Setúbal – Analisemos a caso desta escola que aparentemente é a última do ranking nacional. Quem são os alunos desta escola? Quem são as famílias dos alunos desta escola? Qual a classe social e económica das famílias dos alunos desta escola? Como é sabido de todos as escolas do distrito de Setúbal são as mais problemáticas do país. Em todos os aspectos! As notas reflectem isso mesmo. Mas ainda assim conseguiram ter 50 % de aprovações. Analisemos agora em conjunto a melhor e a pior escola. Pergunto eu agora? Será que são mesmo a melhor e a pior escola? Os números assim o dizem. Mas será que estes reflectem realidades iguais? Para mim, a melhor, ou seja o Colégio de Lisboa ou do Porto, não fazem nada do outro mundo. Limitam-se a trabalhar com um material humano bom e dar continuidade ao trabalho feito no interior das famílias. Aqui, qualquer professor “é bom”. Pudera! E se pegarmos nos professores destes colégios e os levássemos para a escola que ficou em último lugar? Que aconteceria? Acredito que na Escola de Setúbal se farão autênticos milagres para que, com o material humano com que têm que trabalhar, mesmo assim ainda consigam ter 50 % aprovações. No entanto é irremediavelmente a ÚLTIMA. Caros leitores, pensem um bocadinho no que vos acabei de contar e depois digam-me se há justiça no ranking das escolas. Será que o referido ranking reflecte a verdadeira realidade dos factos?"
Nota – Houve um anónimo que então acrescentou algo mais que eu não poderia dizer sob pena de ter meio mundo a atirar-se a mim:
"A EDUCAÇÃO E O ENSINO A qualidade do ensino passa primeiro pela qualidade da Educação. Educação é a palavra chave, o ensino vem depois, como tantas outras coisas da vida. A Educação são regras de conduta no meio social, (seja na rua, na escola,no trabalho ou outros) O Ensino é uma componente da vida, como é trabalho ou a prática desportiva e o lazer. Mas todas estas componentes não dispensam a Educação que compete em primeiro lugar aos Pais e às famílias e só depois também às Escolas. Outra coisa que muito vulgarmente alguns confundem é o Analfabetismo com Educação. Há analfabetos Educados Há formados sem educação Sem Educação não há ranking que promova qualquer Instituição. FAÇAM O RANKING NACIONAL DA EDUCAÇÃO E Vão VER QUE PAÍS TEMOS."
No dia seguinte o meu colega António Venâncio acrescentou noutro texto:
"Ontem o meu colega Jacinto Cesar deixou aqui um texto onde, com exemplos, procurou deixar claro como é elaborado o ranking das escolas, e os diversos factores que o afectam. Pelos comentários aqui surgidos parece haver pessoas que só olham para os números, sem procurar compreender um pouco do que está por trás. Hoje volto, ainda que indirectamente, ao assunto para deixar aqui alguns números e situações reais.
Uma determinada turma da Escola Secundária D. Sancho II tem dez Professores e vinte e cinco Alunos.
1- Até ao final do mês de Outubro (falamos de um mês e meio de aulas) os Professores, no seu todo têm averbadas 2 (duas) faltas, o que para o ranking de faltas dos Professores daria uma média de 0,2 (dois décimos) faltas por Professor é claro que as faltas em causa são de apenas dois Professores, tendo os restantes 8 (oito), 0 (zero) faltas mas são coisas das médias para o ranking.
2 – No mesmo período os 25 (vinte e cinco) Alunos tiveram 1497 (mil quatrocentas e noventa e sete faltas) o que para o ranking de faltas dos Alunos daria uma média de 59,88 (cinquenta e nove unidades oitenta e oito centésimas) faltas por Aluno. É certo que nessa turma está um Aluno que tem apenas 1 (uma) falta e um outro que tem 129 (cento e vinte e nove) mas mais uma vez são coisas das médias para o ranking.
3 – Foram convocados 8 (oito) Encarregados de Educação, dos Alunos com maior números de faltas, para lhes comunicar a situação escolar dos seus educandos, e para acertar estratégias para melhorar a assiduidade dos alunos, factor indispensável a uma boa aprendizagem, não compareceu nenhum.
4- Um Aluno, pediu transferência par esta turma já no decurso do ano lectivo, por não gostar da área curricular onde se encontrava. Passadas três semanas e algumas falta veio um dia à Escola com o respectivo Encarregado de Educação para informar que ia deixar de estudar. Um dos Professores da turma, tentando demovê-lo dessa decisão e demonstrar-lhe a necessidade de continuar a sua formação, perguntou em determinado momento o que iria ele fazer depois de abandonar a Escola, qual era o seu projecto de vida. Perante o silêncio do Aluno, o Encarregado de Educação respondeu: “- Vai tirar a carta de moto!” São estes os Professores, os Alunos e os Encarregados de Educação que fazem a posição no Ranking da nossa Escola. Cada um que tire as suas conclusões.
Para concluir, um exemplo paradigmático e que ilustra bem tudo o que aqui se disse. No ano passado, um aluno meu veio-me informar que iria faltar aos exames. Perguntei-lhe o porque de tal decisão. Resposta: “Os meus pais vão de férias agora e eu vou com eles”. Sem comentários.
Jacinto César
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