Nestes últimos tempos tenho andado triste com o futebol. Mesmo zangado! Eu explico.
Todos nós já ouvimos cantar o já saudoso Luciano Pavaotti. Será que não reparámos sempre na vontade e no empenho que punha nas suas interpretações? Presumo que sim! Além de ser dono de uma voz admirável era um profissional que nunca defraudou quem o ouvia. O génio e a força de vontade, o homem e a alegria que punha nas interpretações. Um regalo para os ouvidos! Presumo que o que afirmo não tem contestação.
Aqui há uns tempos atrás assisti a um espectáculo de um grupo de dança irlandês e que se chama River Dance. Já não era a primeira vez que via o grupo a actuar, mas mesmo assim continuo a ficar impressionado com a vontade de fazer e fazer bem, com o empenho total que põem na dança e a alegria que se nota nos olhos, da satisfação e do gosto com que fazem o que fazem. Pode-se gostar o não do que dançam, mas obrigatoriamente se tem que reconhecer do que o que fazem, o fazem na perfeição. Um regalo para os olhos. Presumo que também aqui não pode haver contestação.
No mês passado e contra todas as expectativas, a selecção nacional de rugby disputou o campeonato do mundo da modalidade. Fomos “cilindrados” por quase todas as formações que contra nós jogaram. Alguém viu algum jogador virar a cara à luta contra qualquer Golias que lhe aparecia pela frente? Eu não vi! Alguém viu a selecção baixar os braços mesmo quando a desvantagem no marcador era monumental? Eu não vi! Alguém viu aquele grupo fantástico de cabeça baixa mesmo nos momentos mais adversos? Eu não vi! E alguém viu o empenho e a vontade com que cantaram o Hino Nacional? NÓS VIMOS! Um regalo para os olhos. Confesso que naqueles momentos senti inveja de não fazer parte de um grupo assim! Alguém pode contestar isto? Penso que não.
Nestes últimos tempos tenho visto vários jogos de futebol entre os mais variados clubes e selecções. Por acaso alguém reparou no esforço que aquelas vedetas da bola fazem ao jogar? Viram? Eu cá não. E o empenho? E a vontade? E o gosto? E o comer a relva se necessário? E o desportivismo? E a educação? Viram? EU NÃO! E que vejo então? Um bando de meninos mimados, ricos, mal formados e educados a fingir que jogam à bola e a fazerem o “frete” de darem umas fintas e uns pontapés numa maltratada bola! E pergunto eu? Mas como é que é possível eu estar a ajudar a pagar as fortunas que ganham e produzirem um espectáculo tão pobre, tão triste e lamentável, a atingir as raias do escândalo? Só posso ser burro de certeza! Como é que é possível que um trabalhador necessite de várias vidas para ganhar o que um craque destes ganha num ano? E eu a alimentar o sistema comprando jornais e engolindo a publicidade que me impingem durante os jogos nas televisões! Afinal não sou burro, mas sim burro ao quadrado. Não posso mais. Já levei muitos pontapés e já fui fintado muitas vezes. Não aguento mais. Zanguei-me definitivamente com o desporto rei!
Jacinto César
Era inevitável que depois do Fado teria que abordar o tema rei da nossa comunicação social e que é o Futebol. Mas tal como ontem, não irei aqui comentar o futebol propriamente em si, mas outros futebóis.
Tal como tenho feito noutras situações, também aqui me quero despir para não haver confusões: sou benfiquista, sócio e accionista (10 €). Sou adepto de sofá e de mesa de café por motivos que mais adiante explicarei.
Por onde começar? Bem, o futebol é qualquer coisa que fazem 22 bestas ou bestiais (consoante o momento) todos em trajes menores e às ordens de mais outras 3 bestas ou bestiais, aos pontapés a uma bola. E que mal tratada é esta última.
Vou ao futebol desde pequeno na companhia do meu pai que apesar dos seus 95 anos continua a saber bem do que estamos a falar. E que via eu por essa altura? Homens bravos, homens aguerridos, homens leais e honestos para com a camisola que vestiam, homens simples, homens que pela cor do seu clube comeriam o pó do chão (não havia ainda a modernice da relva), homens que saíam do campo de cabeça erguida tanto o resultado da contenda lhes tivesse sido favorável ou não! Talvez alegres ou tristes com o resultado, mas de cara no ar!
Como me poderei eu esquecer daqueles bravos do Benfica que ganharam ao Barcelona e Real Madrid as duas taças dos Campeões Europeus? Como esquecerei aquele golo do Morais que deu a vitória ao Sporting naquela final da Taça das Taças? Como me poderei esquecer alguma vez daqueles 11 de Inglaterra que se bateram como leões até ao limite das forças? Foram enormes de grandes (como dizem os espanhóis). Lembram-se ainda do Zé Pereira do Belenenses e do seu companheiro de clube Vicente? E que dizer dum Zé Carlos e de um Hilário do Sporting? E dum Eusébio e dum Coluna do Benfica? E daquele bom gigante que dava tudo o que tinha e não tinha e que tem o nome de José Torres? E de tantos outros de que ainda tenho uma vaga ideia como os chamados 5 violinos, ou José Maria Pedroto ou mesmo do NOSSO Patalino?
Mas será que estou a falar do mesmo a que hoje chamamos futebol? De certeza que não. Impossível!
Olhemos para os jornais (olho somente porque me recuso a contribuir para outra classe de parasitas que são os jornalistas desportivos): o Zé Brasileiro Português de Braga assina pomposamente pelo Cascalheira de Baixo. Jura que desde que nasceu já era adepto do clube e que lhe será fiel enquanto vivo! Passados quinze dias acenam-lhe com umas notas de euros e aqui vai o rapaz a rezar a mesma ladainha para outras bandas! Honesto, não é? E aquele Zé dos Cantos que prometeu perante a euforia dos adeptos que rebentaria com as redes de qualquer baliza que se lhe apresentasse pela frente e depois se arrasta pelo campo num estilo de fazer doer o coração? Honesto não é? Bem poderia eu levar aqui tempo a falar de casos e mais casos que quando acabasse já não eram os meus dedos a bater nas teclas mas sim as falangetas do meu esqueleto.
E que dizer dos dirigentes dos clubes (o meu incluído): pessoas fantásticas, de um nível cultural e moral superior e de uma honestidade sem par (ao lado deles, se fosse vivo, até o Al Caponne coraria de vergonha).
E os nossos respeitáveis árbitros? Imaculados na sabedoria e na aplicação das leis, honrados e incorruptíveis até ao limite só ultrapassados por um honestíssimo Don Vito Corleone!
Valha-me Deus, mas será que isto é futebol ou será uma gigantesca fraude para a qual todos nós mais ou menos alienados contribuímos? Eu cá por mim penso que vou desistir e dedicar-me a ver o campeonato de berlinde aqui dos miúdos do meu bairro!
Jacinto César