A noticia do dia, na área da prevenção rodoviária, é a criação de mais um dístico.
Analisado descuidadamente, até parece uma boa ideia, sabermos se o condutor que se aproxima é bom ou mau condutor, para podermos tomar as devidas precauções, no entanto pensando melhor não lhe vejo grandes vantagens e todo o sistema proposto em linhas gerais é tão incoerente e injusto que só pode resultar num novo motivo de caça à multa, sem qualquer efeito prático na redução de acidentes.
Analisemos algumas das vertentes do projecto:
- Em primeiro lugar, penso ser bom principio considerar que todos os outros condutores que connosco se cruzam na estrada são maus condutores, ou pelo menos vão distraídos naquele momento, independentemente da etiqueta que tenham (para quem, como eu, anda muitas vezes de moto, isto é uma regra de sobrevivência) e não pensem que me excluo, porque eu próprio cometo os meus erros, embora tente evitá-los, e também me distraio.
- Em segundo lugar qual o tamanho do dístico a colocar?...É que se o mesmo for muito pequeno não tem qualquer visibilidade e portanto só serve mesmo para a caça à multa, se for muito grande, lá se vão os milhões de euros gastos em investigação pelas empresas do ramo automóvel na área do desine para aumentar a área envidraçada, contribuindo desta forma para o aumento da visibilidade do condutor, e para a segurança passiva do veículo (podemos estar a colocar uma mancha verde no campo de visão de um “bom condutor”, que de um momento para o outro se torna “mau condutor” porque não viu alguém que entrou da esquerda numa rotunda ou se atravessou na passadeira por trás dessa mancha).Já agora qual o local para colocação do dístico nos velocípedes, ciclomotores e motociclos?
- Em terceiro lugar parte do princípio que um veículo é conduzido apenas por um condutor, se não vejamos numa família com apenas três pessoas e um automóvel o que pode se passar ao longo do dia o pai pega no carro da família logo pela manhã (partamos do princípio que é mau condutor) cola o dístico vermelho, passado uma hora chega a casa descola o dístico, a mãe que necessita ir às compras (teve no mês passado um pequeno toque), coloca o dístico laranja e segue para a cidade, volta para o almoço e retira o dístico, depois de almoço, o filho, que tirou a cara há uma semana, pede o carro pela segunda vez para ir à universidade pagar as propinas, como ainda não bateu coloca o seu dístico verde. Estamos a partir do princípio que cada um só pega no carro uma vez por dia, mas a realidade pode ser outra bem mais complexa. Claro que há uma fábrica de autocolantes que se vai encher de dinheiro só para fazer os dísticos, certamente homologados, que esta família vai ter que colar e descolar do pára-brisas do carro sempre que mude o condutor. Para os Senhores Ministros isto não é problema, para começar o carro é do estado e os motoristas também, e provavelmente vão até ficar isentos de dístico, como estão isentos de muitas outras coisas, e carros particulares, como o ordenado permite, têm certamente um (ou quem sabe mais do que um) para cada membro da família.
Finalmente o critério de atribuição de dísticos merece uma análise mais profunda por completamente injusto:
- Em primeiro lugar considera como “bom condutor” todo aquele que tenha acabado de tirar a carta e ainda não tenha tido um acidente, embora as estatísticas mostrem que é nos primeiros três a quatro anos de carta que se verificam o maior número de acidentes.
- Em segundo lugar comparemos estas duas situações um condutor faz cinco mil quilómetros por ano, tem um acidente ao fim de cinco anos com culpa, e volta a ter outro ao fim de outros cinco também com culpa. Este condutor, nos dez anos, percorreu cinquenta mil quilómetro e teve dois acidentes deverá ter usado o dístico verde durante sete anos aproximadamente e o laranja durante três. Outro condutor, percorre por ano cinquenta mil quilómetros tem um acidente com culpa ao fim de três anos outro ao fim de cinco, outro ao fim de sete e outro afim de nove. Este homem percorreu nestes dez anos quinhentos mil quilómetros, terá usado o dístico verde apenas durante três anos, o laranja durante seis anos e finalmente um ano com dístico vermelho. Mas afinal qual destes homens é pior condutor?...
O primeiro provoca em média um acidente por cada vinte cinco mil quilómetros
O segundo provoca em média um acidente por cada cento e vinte cinco mil quilómetros.
- Em terceiro lugar tenho uma certa dificuldade em saber como e a quem serão atribuídos os dísticos relativos aos muitos acidentes provocados pelo mau estado da sinalização das nossas estradas.
- Também não sei qual o critério para a colocação do respectivo dístico aos peões, que atravessando fora das passadeiras e com os semáforos fechados provocam parte significativa dos atropelamentos.
Concluindo, neste afã de rotulagem, convém respeitar as regras fundamentais que exigem que o rótulo esteja de acordo com o conteúdo, o que, pelo que acima se expõe não me parece ser bem o caso.
António Venâncio