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Domingo, 26 de Agosto de 2012

Tudo em banho-maria

 

 

O Agosto continua e a pasmaceira também. Nada se passa na nossa terra e no país também, a não ser o estarmos todos à espera da sentença da Troika. Parecemos um povo atordoado à espera da sentença de um julgamento. Eu sinto-me na mesma. Para atenuar um pouco a pasmaceira tivemos o Benfica a dar uma mão cheia de golos aos sadinos e foi tudo.

Bem, à falta de assunto, lá vai mais um capítulo dos escritos de Vitorino d’Almada.

Uma boa semana para todos.

 

A FUNDAÇÃO D'ELVAS

           

Do muito que se tem escrito a respeito dos primeiros povos que se fixaram na Península, apenas se supõe verdadeiro, que esta região foi povoada por duas migrações sucessivas da Ásia, que mais tarde se denominaram iberos e célicos.

            Depois, uns aventureiros gregos, descobrindo a costa do país, colonizaram algumas terras do litoral; e os fenícios, ou cartagineses, tão aventureiros como eles, fizeram outro tanto, por seu turno, chegando a ocupar a melhor a melhor parte de Espanha, primeiro como aliados, depois como conquistadores.

            O domínio cartaginês firmou-se definitivamente na Península, três séculos antes de Cristo e foi Amílcar, pai do grande Aníbal, quem subjugou os celtas das margens do Guadiana (Herculano Hist. de Port. introd. I pag.18).

            Se Elvas, durante este longo lapso de tempo, deixara de ser um simples monte para receber o nome de povoação, e agora abria as suas portas ao conquistador não o deixou escrito o romano Plínio, nem o grego Strabão.

            A acreditar André de Rezende, Elvas devia ter sido fundação dos helvios originários da Galia Narbonense ( Rezende- De Antiq. Lusit. 1790. tom I. pag. 25 e 279 ); e a  aceitar as afirmações de Fr. Bernardo de Brito, antes da ocupação de Amílcar, o cartaginês Mahárbal, explorando o país interior, adoecera em Elvas, e fizera voto de erigir um santuário ao deus Endovéllico se escapasse da enfermidade ( Brito - Mon. Lusit. part. 1.ª pag.180 ).

            Mas Brito, que deturpou o seu trabalho, inventado onde não achou memorais, não tem para nós autoridade, principalmente quando narra um sucesso, como este, sem uma referencia a escritor antigo que tivesse afirmado outro tanto, e Rezende, com quanto dos nossos antiquários o melhor conceituado, porque baseou a sua obra nos escritos de historiadores e geógrafos antigos, e no descobrimento de lousas e cipos autênticos, nos pontos em que historiadores e geógrafos lhe faltaram, arriscou, como qualquer outro mortal, umas indecisas suposições, baseadas apenas na semelhança de vocábulos; assim os helvios deviam ter fundado Elvas, os eburões Évora, etc.

            Não nos parece aceitável que, sendo Elvas tão antiga, se conservasse povoação insignificante, como se conservou, até ao desmembramento de califado de Córdova. O que se nos afigura mais verosímil é, que os celtas das cercanias, até então comerciando em paz com os estrangeiros, não tendo pensado nunca em fortificar-se, ameaçados agora pelas hostes africanas, tratariam de associar-se na resistência, acolhendo-se ao vizinho monte, e estabelecendo na sua cumeada  uma rude fortaleza para receber o invasor em tom de guerra.

            Assim concilia-se melhor a insignificância da Elvas árabe com a Maior certeza da sua existência; e admite-se, que a fortificação se conservasse grosseira e provisória até á entrada das primeiras legiões romanas de ocupação com o pretor Marco Helvio, a quem é mais provável dever-se o nome que recebeu a povoação nascente.

            Esta probabilidade, já recebida por alguns autores  ( Bluteau, citado por José Avelino, Annaes, pasta. III, nota 361.- Varela, Theatr. Hist. cap. II ) é também a que nos parece mais razoável, e diremos em que nos estribamos para julga-lo assim.

            É sabido, que as duas republicas Roma e Cartágo, olhando-se por muito tempo com emulação, não puderam deixar, num momento dado, de romper cruamente as hostilidades.

            Nesta luta de gigantes, os lusitanos, mais que nenhum outro povo peninsular, fizeram causa comum com os cartagineses, foram verter o seu sangue no Trasimeno e em Cannas, colhendo com Aníbal os louros da vitória; e mais tarde quando Scípião o moço, na declinação da glória cartaginesa, submeteu a Península, e atravessou o estreito de Hércules (Gibraltar) para ferir no coração a sua orgulhosa rival, os lusitanos, dizíamos, acompanharam dedicadamente os aliados até á batalha de Zama, onde se perdeu a flor desta nação belicosa, deixando a pátria á mercê dos novos dominadores, sem elementos alguns de força e de vida.

            Prova esta asserção a neutralidade da Lusitânia nas revoltas que desde logo se atearam na Bética e na Tarraconense contra a dominação romana.

            Estas revoltas tinham tomado um grande incremento dez anos depois da anexação da Península; dois chefes poderosas da Betica tinham arrastado á rebelião grande numero da cidades ( Tito Livio- lib. 32º XXVIII.  33º XXI ) e nestas criticas circunstâncias, os cônsules enviaram á Península os dois pretores, a que os comícios populares haviam entregado o governo das novas províncias de Espanha Citerior, e Ulterior.

            Um dos pretores, Marco Helvio, entrando na posse da administração da província Ulterior, no ano 197 antes de Cristo, conseguiu a custo pacificar a Betica, já demasiadamente agitada, e avançando naturalmente sobre a Lusitânia, encontrou a paz tão apetecida, e um povo amogo, que o aclamava na sua passagem.

            É a esta ocasião que nós referimos uma provável digressão do pretor ás povoações celtas das margens do Guadiana. Aproveitando a tranquilidade do país, curaria de reformar alguns castelos, dos que os cartagineses fundaram ao modo dos gregos,  e as toscas fortificações de Elvas, que, passando a ter foros de povoação acastelada, enjeitaria qualquer nome, que já tivesse, para adoptar o do pretor Marco Helvio, como passados tempos, outras povoações tomaram os nomes de Julia, e de Augusta, em honra dos césares que as encheram de benefícios.

            Pode muito bem não ter acontecido assim. Hoje ninguém irá, á face de documentos afirmai-lo, nem nega-lo; apresentar mais ou menos probabilidades, sim. Contudo, o que não oferece duvida é a existência de Elvas durante a dominação romana, provada por muitos monumentos, que se tem nela descoberto e dos quais trataremos no seguinte capítulo.

            Nota -  No ultimo numero do excelente semanário El Recreo, que se publica em Olivença, enviou-nos o seu proprietário, e nosso prezado amigo, D. Marcelliano Ortiz Lopez, a propósito deste nosso trabalho, umas palavras tão benévolas, e tão animadoras, que nos penhoram sobremaneira.

            Agradecemo-las do fundo da alma, e tanto mais reconhecidamente, quanto mais persuadidos estávamos, de que os dez anos que vão decorridos desde que nos não correspondemos lhe teriam apagado a memória o nosso humilde nome, e do coração a amizade que entretínhamos.

            Ainda bem que nos enganávamos; pedimo-lhe portanto mil perdões, e que nos não prive em nenhum tempo da sua amizade, que muito prezamos, e muito nos honra.

 

Jacinto César


Tasca das amoreiras às 23:41
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