Há precisamente 3 anos escrevi este texto. Desde que este assunto começou a ser falado ninguém tugiu nem mugiu. Tudo na mesma, ou seja, o assunto continua actual e pertinente.
“O assunto que me leva hoje a escrever sei que é polémico e que divide a população de Elvas, mas mesmo assim vou arriscar. Trata-se do S. Mateus e da data da celebração da festa que reúne anualmente todos os elvenses.
Em minha opinião esta deveria ser antecipada de um mês, ou seja, para 20 de Agosto. Mas vamos por partes:
1- Diz-nos o calendário que o dia 21 de Setembro se comemora o dia de S. Mateus. Esta data comemora-se há muitos séculos e isto desde que a Santa Sé instituiu para cada dia do ano o nome de um Santo. A tradição é a tradição e quanto a isso nada a fazer.
2- O dia de S. Mateus celebra-se há muitos anos na nossa cidade por um motivo fundamental: representava o final de um ano agrícola e o inicio do seguinte. Era por estes dias que quem vivia no campo vinha à cidade fazer as compras do ano, como as botas novas, o casaco e as calças e todos os artigos que não conseguia produzir. Aproveitava-se também para negociar o gado. Estes dias eram como que as nossas férias actuais só que mais curtas, e isto se o patrão estivesse de boa maré! Deslocavam-se para Elvas nos tradicionais carros de canudo que lhes servia de residência. Os bailaricos eram também o prato forte. Estas eram portanto as tradições, mas que devido aos avanços do tempo se foram alterando.
3- Em relação ao ano agrícola estamos conversados pois as alterações foram radicais e como tal a tradição perdeu-se. Quanto ao facto de os agricultores virem fazer as suas compras anuais já foi. As coisas mudaram e hoje aí estão os imponentes hipermercados a venderem tudo os que as pessoas necessitam (e não necessitam) desde manhã à noite incluindo sábados, domingos e feriados. Lá se foi a tradição!
4- Tal como atrás disse as pessoas deslocavam-se nos belos carros de canudo. Depois passaram a vir de autocarro (lembro-me de nas proximidades do parque da Piedade haver uma sementeira de placas que anunciavam o destino dos autocarros da Setubalense e na parte lateral da igreja lá estava o velho autocarro branco dos Painhos pronto para nos trazer e levar para o centro da cidade). Chegavam às dezenas de todos os lados. Havia que trouxesse a trouxa atrás e passasse aqueles dias festivos na mata da Piedade. Pois bem, a tradição também se perdeu. Dos que vinham para ficar, restaram os Camponeses (Campomaiorenses) que vêm armados de tendas e caravanas e de toda a mobília atrás
Estas eram as tradições e como elas se perderam. Falemos agora de coisas mais práticas:
1- Até ao 25A as aulas da miudagem começavam sempre no 1º dia útil a seguir ao 5 de Outubro. Hoje as mesmas aulas começam a 17 de Setembro e com tendência a começarem ainda mais cedo. Ora se a festa era para a rapaziada e para os pais, como é que se conseguem conciliar as duas coisa?
2- Cada vez mais as pessoas fazem as férias em Agosto precisamente por causa das férias dos filhos. Então não seria juntar o útil ao agradável, ao termos as festa a coincidir com as férias?
3- As festas, tanto as religiosas como as pagãs, sempre estiveram condicionadas pelo número de visitantes e do vil metal que aqui deixavam. Quando há menos gente, é a bandeja da igreja que se ressente, são os comerciante que se ressente, o aluguer dos terrenos a descer, etc. Ora o inverso é verdadeiro ou não?
4- Os caprichos meteorológicos: como é sabido nessa altura do ano o S. Pedro é pródigo em pregar umas partidas e com as respectivas consequências. Ou não é assim?
Ora bem, se as tradições já não são o que foram, se tudo se modernizou nas nossas vidas, então porque não antecipar num mês as Festas da Cidade, as do Senhor Jesus da Piedade e do S. Mateus?
Exmos. Senhores da Mesa da Confraria do Senhor Jesus da Piedade, porque não pensarem no assunto, ou será que são tradicionalistas que os impedem de ver as coisas como são? Lembre-se que até há pouco tempo o sacerdote rezava a missa virado para o Senhor e agora o faz de costas para Ele. Como vêm até aqui as coisa mudaram.
Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Elvas, presumo que para o senhor tanto se lhe dá que seja numa data como noutra deste que o “povo” esteja contente. Pois bem, se se gasta tanto dinheiro para tudo e para nada, promova um REFERENDO Municipal que a lei lhe permite e assim ficaríamos a saber a vontade de todos nós.
Cá por mim, que se mude!
PS. Não mencionei por lapso um grupo importante: os nossos emigrantes, e que não são poucos!”
Adenda
Desmistificação do 20 de Setembro
Era vontade minha continuar a argumentar sobre as razões da proposta que tenho vindo a fazer para que a Procissão dos Pendões e a Feira de S. Mateus passassem a iniciar-se a 20 de Agosto.
Pelos comentários que se têm feito e que apontam sempre na mesma direcção, ou seja a tradição, não me resta outra alternativa que apresentar o argumento último. Era em princípio para ser o último, depois de apresentar todos os outros argumentos que tinha para fundamentar a minha proposta. Acredito que nenhum demoveria aqueles que pensam que o 20 de Setembro É A TRADIÇÃO. Errado. Não é. Adiante.
Vou contar-vos uma história. Então é assim:
“Recuando no tempo, até ao século XVIII, encontramos aí o início da história daquele Santuário. Num dia de verão, no ano 1736, num local denominado da Saúde, a pouco mais de mil metros a oeste da cidade de Elvas, na antiga estrada que ligava Elvas a Varche, existia uma singela e deteriorada cruz de madeira que assinalava a morte por queda, naquele sítio, de um lavrador da região.
O sacerdote Manuel Antunes, numa das suas frequentes deslocações a uma propriedade nos arredores da cidade, montando uma mula, por duas vezes foi atirado ao chão, ficando bastante maltratado das quedas. Tendo retomado o marcha a pé, sentindo que as forças o abandonavam e temendo já não chegar ao seu destino, o Padre Manuel Antunes ajoelhou-se diante daquela cruz e em oração fez a promessa solene de a mandar reparar e nela pintar a imagem do Senhor e ainda de ali dizer uma Missa votiva em acção de graças, se durante aquele verão, outra queda não voltasse a dar e a sua débil saúde não se agravasse.
Tendo as suas súplicas sido atendidas e em cumprimento do voto, mandou reparar a singela cruz e pintar-lhe a imagem de Jesus Crucificado, que justamente intitulou de Senhor Jesus da Piedade. Mandou ainda levantar um poste com um nicho, em alvenaria, onde foi colocada a cruz com a imagem para que ficasse convenientemente resguardada. A Missa foi rezada em altar próprio erguido junto daquela milagrosa Cruz e teve a assistência de muita gente. Era o início de uma importante romaria, que se repetiria e crescendo ao longo do tempo. Devido à fama dos milagres chegaram peregrinos de toda a parte, inclusive de Espanha, predominantemente de Badajoz, das províncias da Extremadura e da Andaluzia.
Crescendo a fama dos muitos milagres e também da devoção popular, levando ao aumento sucessivo dos peregrinos e das suas ofertas, esmolas e ex-votos, tornou-se necessário construir uma ermida.
Para que a edificação daquela ermida (a primitiva) se concretizasse, Luiz Manuel Marquês, proprietário daqueles terrenos, deu como esmola o terreno necessário, para o traçado ofereceu-se o artista elvense João Fernandes e ainda as esmolas do povo para custear as obras de construção.
A 20 de Outubro de 1737, com a autorização do Cabido, teve lugar a primeira procissão para a transferência solene da Cruz para a ermida. Na procissão participou todo o povo devoto, as autoridades civis, militares e eclesiásticas, a nobreza da cidade e as confrarias com os seus estandartes.
Nesta capela, de arquitectura singular e de planta octogonal, que ainda hoje existe incorporada no corpo da actual Igreja, encontra-se a primitiva Cruz de madeira.”
Reza assim a autorização do Cabido:
“Illl.mo Sr. Diz o Bn.º Manuel Antunes, que elle e varios devotos do Senhor da Piedade edificaram uma capella no sitio da Saude, extramuros d’esta cidade, a fim de collocarem n’ella a imagem de Christo Crucificado, que se acha exposta à inclemencia do tempo no meio d’uma estrada; e porque não pódem transferir a ditta imagem para a nova capella sem licença de V. Ill.ma, e sem primeiro ser a mesma por V. Ill.ma visitada, e approvada, para ver se está com decencia, e que tudo dispõem as Constituições d’este bispado, tit. 18.º, parágf. 1º portanto, P. a V. Ill, ma seja servido mandar visitar a ditta capella; e, achando-a com decencia, approval-a, para se poder collocar a ditta imagem, e juntamente seja servido dar-lhes licença para que a translação se faça com a pompa devida, cantando-se n’ella hymnos e psalmos; como nas procissões se costuma. E. R. M."
Despacho: Commettemos ao M. R. Sr. conego Manuel Garcia para visitar a ermida, que nos representão, e para assistir á mudança da Imagem com a decencia devida; porém não se dirá missa na ditta ermida sem expressa licença nossa. Elvas em cabido de 8 d’outubro de 1737.”
De salientar que a data do Despacho do Cabido é datado de 8 de Outubro e como tal, posterior a 20 de Setembro.
Para aqueles que possam duvidar do que aqui escrevo podem consultar “A egreja do Senhor Jesus da Piedade - Estudos e notas elvenses, vol. III, p.13.” escrito pelo nosso conterrâneo António Thomaz Pires.
Como acabei de demonstrar as celebrações a 20 de Setembro são posteriores, e a partir de um ano que não consegui ainda determinar. Tão pouco consegui ainda saber qual o motivo da mudança do mês de Outubro para o mês de Setembro. De uma coisa tenho a certeza: a data de 20 de Setembro não tem qualquer significado e o mais provável é que tenha sido alterada por uns dos argumentos que ainda iria utilizar, ou seja, a instabilidade meteorológica.
Daqui para a frente pode-se argumentar com tudo o que se queira, mas o argumento TRADIÇÃO morreu!
Jacinto César
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