Imaginemos esta situação por muito caricata que possa parecer: um cidadão comum que gosta de futebol pelo futebol resolve ir ver um jogo entre o Benfica e o Sporting (é irrelevante para o caso que o jogo seja na Luz ou em Alvalade). O Benfica faz um golo espectacular e o homem aplaude. Logo de seguida o Sporting empata o jogo com um golo não menos espectacular que o primeiro e o nosso homem fica doido de alegria. Logo de seguida um jogador encarnado resolve dar uma “sarrafada” num adversário e o espectador pagante protesta. Uma cena do mesmo calibre volta a acontecer, só que desta vez o vilão é verde e a vítima veste de vermelho. E o nosso homem volta a protestar.
Bem, presumo que estão a imaginar o que este adepto do futebol puro teria sofrido às mãos dos furiosos dos dois clubes.
Imaginemos agora uma situação mais real: um cidadão comum elvense, não militante de qualquer partido (que presumo ser a grande maioria) resolve pelos meios à sua disposição aplaudir uma qualquer iniciativa do Presidente da Câmara porque em seu entender essa iniciativa foi positiva. Aí começam os problemas, pois os do clube anti-Rondão ir-lhe-ão “moer a cabeça”. O mesmo cidadão e em tempo diferente resolve protestar pelos mesmos meios contra uma qualquer decisão menos própria que em seu entender o mesmo presidente resolveu tomar. Temos agora os furiosos pró-Rondão a darem-lhe cabo do juízo. E os seus problemas vão-se avolumando.
Agora pergunto eu: será que neste país não se pode gostar de futebol sem ser adepto de nenhum clube? Parece que não! Na opinião destes últimos está proibido estar-se com lagartos e com águias a mesmo tempo.
Será que nesta cidade não se pode ser simplesmente amante da cidade onde pode ter nascido e vivido? Parece que não! Ou se é a favor ou contra, pois é proibido ser-se umas vezes a favor e outras vezes do contra.
Acho muita piada as pessoas manifestar-se contra a chamada “santa inquisição”, contra o extremismo islâmico e judeu, contra o governo espanhol e a ETA e contra qualquer outra forma de fundamentalismo, mas quando nos toca a nós se não és verde só podes seres um reles vermelho, se não és comunista só podes ser um tenebroso fascista e se não és anti-Rondão só podes ser rondanista. Esta situação só me faz lembrar aquela “santa citação” em que faz o que eu digo mas não faças o que eu faço. Hipocrisia, intolerância, radicalismo e fundamentalista. Faz-me ainda lembrar aquelas mulas do antigamente que usavam umas palas nos olhos para poderem só olhar em frente.
Querem uma prova do que digo: há em Elvas 3 blogs com uma actividade regular: o do Tiago Abreu, o do Zé de Melo(?) e o nosso. Todos os dias leio os da “concorrência” e obviamente o nosso. Aí se falam dos mais variados assuntos, que vão desde os relacionados com a nossa cidade aos relacionados com o nosso país passando por temas mundanos, internacionais ou temas gerais. Quando o tema dos “escritos” se enquadra num destes temas, não há comentários, pois as pessoas recusam-se a debater e comentar os assuntos. Se o tema calha a elogiar o Presidente da Câmara aparecem logo alguns abutres a berrar e a insultar que teve a ousadia de escrever tal sacrilégio. Se o tema é criticar o Presidente logo aparecem os outros abutres a fazer o mesmo. Os números estão à vista e falam por si. Os números não mentem. Mas será que as coisas não se podem discutir saudavelmente e sem facciosismos? Será que não se devem discutir temas importantes para a nossa cidade e para o nosso país? E quando o tema é a cultura? Bem, nesse assunto aparecem os mais alucinantes comentários próprios dos carroceiros que tanto criticam.
Pobre Elvas! Pobre Portugal!
Mais havia para dizer, mas fica para uma próxima oportunidade o tema da economia. Será que a Câmara faz bem em ter umas reservas monetárias ou deveria gastar estas em qualquer coisa? Penso que temos aqui a história da formiga e da cigarra!
Jacinto César
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