25 de Abril, 36 anos depois
Faz hoje 36 anos, estava eu, quase há dois anos em Moçambique. Por essa época, toda a gente falava de política sem limitações, chegando mesmo a ter como participante nas conversas agentes da PIDE. De tudo se falava, mas da revolução que estava para chegar, todos eram ignorantes. Não nos passava pela cabeça o que se estava a preparar por cá. Para se ter a noção de como as notícias lá chegavam, só no dia 26 é que se começou a falar “em qualquer coisa” que tinha acontecido na Metrópole. Só passados uns tempos é que tivemos consciência do que de verdade se tinha passado. Bem, na verdade só quando regressei em finais de Outubro é que tive a noção certa do que tinha acontecido. Bastou para tal desembarcar no aeroporto do Figo Maduro e sentir a recepção que tivemos por parte dos célebres SUV (para os mais novos “Soldados Unidos Vencerão”) que fizeram o favor de nos terem ido a receber com insultos e coisas tais, para saber a confusão em que o país estava metido. Tínhamos o país virado de pernas para o ar, isto, segundo o meu ponto de vista, claro. E assim ficou durante uns anos.
Se houve coisas com as quais concordei, outras houve com as quais nunca aceitei. Mas passemos à frente.
Os anos que se seguiram, foram anos de esperança. Eu já nem falo na Liberdade que dum momento para o outro adquirimos e que viemos a utilizar muito mal. Mas no que eu mais tinha esperança era na Justiça Social de que tanto se falava. Contrariamente ao que os “vermelhos” propagavam, não queria de modo algum acabar com os ricos, mas sim com os pobres e vendo bem as coisas, passados 36 anos quase que estamos na mesma. Se é verdade que todos vivemos melhor do que vivíamos, as disparidades mantiveram-se. Não, pioraram! Nunca houve um fosso tão grande entre os privilegiados e os mais desfavorecidos. Se é verdade que antes tínhamos uns quantos Almirantes Henrique Terreiro, hoje cresceram que nem cogumelos. A corrupção está em todos os sectores da sociedade. Os compadrios e as cunhas que as havia dantes, jamais deixaram de existir. Antes, quem queria subir na vida tinha que se filiar na União Nacional ou pertencer à Legião Portuguesa. Hoje tal como dantes, temos que vender a alma ao diabo e dar o nome a um dos partidos que estão sempre no poder. E que dizer dos célebres tribunais plenários do antigamente? As injustiças eram mais que muitas! E hoje? Os atropelos são constantes e vendo bem a coisa, não passa de uma miragem. Justiça? Mas onde para ela?
Poderia continuar aqui a chorar mais, mas já não tenho lágrimas. Estou farto!
Jacinto César
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