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Quinta-feira, 8 de Abril de 2010

Os Ciganos em Elvas – 3

Estou consciente que aquilo que escrevi pode ser mal interpretado, mas para se fazer uma crítica séria ao que se tem passado, não poderemos deixar de saber os antecedentes e os porquês. Sei que as asneiras que já foram feitas, feitas estão. No entanto não podemos ficar a “chorar” e lamentarmo-nos do que já aconteceu e continuarmos de braços cruzados. Espero que os nossos leitores fiquem conscientes do passado recente. Continuemos com o resto da história.

… …

3.2 – As primeiras medidas conhecidas e implementadas pelas autoridades locais remontam aos finais da década de setenta, princípios da de oitenta.

A primeira consistia na disponibilização de um terreno, mais ou menos afastado da comunidade urbana, onde seria construídas infra-estruturas que lhes permitissem viver em condições “menos degradantes” – água, luz e esgotos. As construções (barracas) seriam da sua responsabilidade e ao seu gosto. Esta tentativa acabou por sair frustrada, pois, a comunidade cigana não queria ir para tão longe da cidade, ao mesmo tempo que diziam estar a ser ainda mais marginalizados do que já eram. Julgo que a maior parte da população estava de acordo com a medida pois era a maneira “de se verem livres deles” segundo as palavras de testemunhos. Quer isto dizer que a sociedade onde eles se “tentavam” integrar, também não os aceitava muito bem. Iam-nos suportando com mais ou menos conflitos, recorrendo constantemente à GNR e PSP. Houve alturas em que os conflitos se agudizaram tanto que a maior parte da comunidade abandonou a cidade. Por altura das feiras e a pretexto das vendas, acabavam por, aos poucos e poucos, se instalarem novamente. A comunidade foi aumentando progressivamente.

A anterior situação manteve-se até nova tentativa de integração ocorrida nos anos subsequentes ao 25 de Abril e promovida mais uma vez pela autarquia. A intervenção não foi total pois esta limitou-se a iniciativas um tanto ou quanto camufladas e a gerir um assunto que não lhe pertencia. Expliquemo-nos melhor. Dada a necessidade premente e urgente da construção de habitações sociais, o Fundo de Fomento de Habitação promoveu a construção de um bairro de habitações de renda económica (S. Pedro) que, por coincidência, ficou localizado nas proximidades do local onde a comunidade cigana estava instalada. Mais precisamente, havia somente uma rua a separar o novo bairro do aglomerado de tendas e barracas.

Aberto o concurso para a distribuição dos fogos, o Presidente da Câmara sugeriu à referida comunidade que se candidatasse, dado, a extensão do seu agregado familiar e as parcas condições económicas. O grupo acabou por aderir à ideia, sem no entanto ter reflectido sobre as consequências. A Câmara por sua vez, rejubilou com a hipótese de se ver livre das barracas. Puro engano, como veremos mais à frente.

Quando foram feitas as atribuições verificou-se que na realidade 12 moradias geminadas de r/c e 1º andar foram entregues a famílias ciganas, sendo a localização delas precisamente em frente ao local onde tinham situadas as barracas onde anteriormente viviam.

 

3.3 – A primeira consequência visível e contra todas as expectativas da autarquia, foi não só a não demolição das anteriores barracas como a sua reocupação por outras famílias que entretanto vieram para Elvas.

Decorrente das entrevistas feitas, constatou-se que as expectativas criadas com a atribuição das novas casas não foram ao encontro das suas necessidades culturais, isto é, a sua compartimentação não de adequava aos usos e costumes dos ciganos. A estrutura das habitações foi concebida de forma estandardizada, e não teve em conta os hábitos da família cigana que necessita de uma sala muito ampla com lareira (leia-se fogueira) – ponto de reunião e convívio - , uma divisão destinada aos animais e um armazém para as mercadorias que comercializam.

De toda esta inadequação surgiram os comportamentos mais inesperados:

- as barracas que deveriam ter sido demolidas não o foram, chamando a si novas famílias, o que teve como consequência imediata o aumento da comunidade cigana na cidade;

- as famílias que ocuparam as casas, devido à sua inadequação, construíram novas barracas junto das anteriores, o que fez que o número destas tivesse aumentado bastante;

- a utilização das diferentes divisões foi totalmente alterada assistindo-se a: casas de banho transformadas em cavalariças, banheiras deslocadas para os quintais transformando-as em canteiros, demolição de paredes para tornar mais amplas as divisões, falta de pagamento das rendas, etc.

E porquê então tudo isto? Será que algum dia a comunidade cigana se adaptará a uma construção fixa, dada a sua natureza errante? Será que o seu espírito tribal lhes permite uma inserção numa comunidade diferente da sua?

Estas questões só terão resposta se os ciganos forem capazes de uma aculturação de modo a alterar, embora lentamente, alguns dos seus hábitos, sem desprezar a sua identidade cultural.

Por outro lado, deve haver também da parte da sociedade global uma tentativa de facilitar essa integração.

Há ainda a responsabilidade das autoridades. Estas, dados casos idênticos em vários pontos do país, deveriam actuar com mais cuidado, recorrendo a assistentes sociais para os ajudar nessa tarefa nada fácil.

 

4 – Há um ditado popular que diz que se “é morto por não ter cão e morto por o não ter”. E é bem verdade! Isto vem a respeito da integração ou não dos ciganos na sociedade. Como se pôde verificar, por um lado, eles mais dia menos dia, acabarão por se integrar, só que é um processo que pode durar gerações. É um processo lento mas natural. Por outro lado, essa integração pode ser “ajudada” pelas autoridades. É bem verdade que, quando estas tentaram resolver o problema, não consultaram nenhum especialista na matéria nem tão pouco auscultaram as reais necessidades da dita comunidade. Indiscutível!

Mas pergunta-se: será que, se todo o processo tivesse sido feito obedecendo a todas as regras, teria resultado?

Será que a própria comunidade usa o facto de não terem sido consultados como subterfúgio para justificar as dificuldades que sentem na integração?

Será que eles próprios “querem” uma coisa que o próprio instinto bloqueia?

Para mim tudo se torna muito difícil de entender e por vezes contraditório. Nem a comunidade e nem as autoridades parecem com vontade de alterar alguma coisa. Todos se acomodam, e em caso de conflito acabam por empurrar as culpas para os ouros.

E assim se vai perpetuando uma situação que se não é caricata, pelo menos é de difícil “digestão” para muita gente.     

 

Este foi o resumo que melhor consegui fazer do trabalho que produzi em 1995. Penso que resume bem o que foi a comunidade cigana até então. E o que se passa agora? O que é que se alterou desde então? O que é que se fez para alterar as asneiras que se cometeram? Não será que para combater um problema se arranjaram problemas ainda maiores? O que é que se pode fazer?

Amanhã analisaremos estes e outros aspectos.

 

Jacinto César


Tasca das amoreiras às 00:00
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10 comentários:
De JB a 8 de Abril de 2010 às 10:16
Senhor Professor Jacinto César:
Depois dos detalhados artigos que escreveu, fiquei encantado com aqueles valores de liberdade e alegria.
Pode-me dizer onde me devo dirigir para aderir?
Um abraço do JB


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:04
Liverpool, 4
Benfica, 1
Parabéns, César!


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:05
A magia de há 8 dias acabaram-se em Anfield.


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:06
Com mais dois penaltis a favor, ainda faziam 4-3 e passavam às meias-finais.
Eheheheheheheheheh


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:09
E só ganhaste na Luz porque anularam o 0-2 limpo dos ingleses e expulsaram por engano um forasteiro quando deveria ter sido o Luisão a ir para a rua.


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:37
E... ainda falta falar da segunda derrota do dia: o Tribunal Constitucional não viu inconstitucionalidade na lei do casamento homosexual.
As dúvidas de Cavaco foram desfeitas por unanimidade.
Outra goleada.
Uma desgraça, César, nunca vem só.
"We never walk alone", como dizem os cânticos do... Liverpool.
Eheheheheheheheheheheheh


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:38
Vivam as opções sexuais de cada um!
Abaixo os reaccionários retrógrados.
Cesarianos cada vez mais minoritários.


De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 22:39
César:
Saiste goleado da Liga Europa e arrumaste as botas no casamento de pessoas do mesmo sexo.
9 de Abril de 2010.
Esta data é para recordares, Jacinto.


De Tasca das amoreiras a 8 de Abril de 2010 às 23:01

Caros comentadores


 


Dois comentários:


 


1 – Fico deveras “satisfeito” com o portuguesismo dos nossos comentadores: grande vitória de Portugal com a derrota do Benfica. Pelos vistos já ganharam a época futebolística com esta derrota. Parabéns!


2 – Fico também muito “contente” com a decisão do Tribunal Constitucional. Parabéns! Os caros comentadores finalmente já se podem casar uns com os outros. Felicidades. Como infelizmente estou em condições de poder casar, vou emigrar antes que este tipo de casamento passe a obrigatório. Já agora, uma curiosidade: quem é que é a máquina do comboio?


 


Jacinto César



De Anónimo a 8 de Abril de 2010 às 23:02

É devido a essa mentalidade que os vossos clubes não passam de clubezecos de bairro, as vossas alegrias são as derrotas do Benfica!



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