Cada vez que ouço notícias deste território, faz-me lembrar a luta do povo de Timor. Só que esta já dura há 50 anos.
Estranho muito (ou será que não estranho?) o ruidoso silêncio das democracias e penso: será que temos todos medo dos chineses ou mais grave ainda, será que as nossas democracias se estão a transformar em democracias à moda da China? Porque não? Os restaurantes já estão implantados no ocidente há muitos anos. Agora são os comerciantes de bricabraque que se estendem como um polvo gigante. Já só falta importarmos o regime. Até porque parece-me que não andamos muito longe. Só que no ocidente podemos falar e na China não. Mas será que apesar de podermos falar, alguém nos ouve? Ou será que podendo até berrar, mudamos as coisas?
Tal como as coisas estão, penso que vivemos uma espécie de liberdade virtual. Não consigo encontrar grandes diferenças entre regimes tiranos que se dizem democratas, com os regimes democratas que se portam como tiranos. No fundo não passa do mesmo mas com roupagens diferentes e bem maquilhados. Se me perguntarem para onde caminhamos não sei dizer, mas que não é para coisa boa, lá isso não é. Estando a ser um pouco egoísta, espero já cá não estar para ver como o filme acabou.
Jacinto César
Nos dois últimos episódios os protagonistas foram um aluno e um pai de um aluno. Para não ser acusado de sectarismo, hoje conto-vos uma história de um professor.
No princípio da minha carreira como professor e ainda no tempo do Liceu, tive um aluno ao qual se podia chamar brilhante. Diria mesmo: génio. Tinha tudo aquilo que faz de um jovem um adulto de qualidade: inteligente, trabalhador, integro e uma pessoa excelente.
Passados uma meia dúzia de anos, apareceu aqui na escola como professor. Tinha-se licenciado num curso clássico de dificuldade elevada.
As qualidades mantinham-se intactas, só que o relacionamento com os alunos é que não era o melhor. Dizendo de outra maneira, não tinha mão na rapaziada. A defesa imediata de um professor sem experiência é “por na rua” quem não se porta bem. O problema é que os alunos até gostavam de ser expulsos. E se nos primeiros dias expulsava um por outro, a quantidade foi aumentando, ao ponto de expulsar a turma inteira. E isto todos os dias. Calculo que estejam a imaginar a cena: a turma arranjava um pretexto qualquer para armar “arraial” e passados uns minutos estavam todos na rua.
Costuma-se dizer que para se ser não basta querer. O resto cada um que conclua.
Jacinto César
Há uns anos atrás aconteceu-me o impensável! Eu conto.
Na altura era amigo (e ainda sou) de um funcionário da escola onde lecciono. Já está reformado. Tinha um filho que ali estudava. Infelizmente para o pai, o rapaz não estudava nem “à lei do cacete”, e os “chumbos” repetiam-se ano após ano. O senhor desabafava comigo várias vezes sobre o andamento dos estudos do filho. Conversas de pais, em que cada um lamentava os seus problemas.
Certo dia com o ano lectivo já no fim, o senhor abeirou-se de mim, mas desta vez para me contar com uma enorme alegria, que o filho finalmente tinha passado o ano. Depois de lhe ter dado os parabéns, perguntei-lhe para que ano tinha então passado, pergunta perfeitamente normal nestas circunstâncias. Antes não a tivesse feito! Não é que o homem não sabia para que ano tinha passado o filho?
Acho que não vale a pena comentar, pois cada um tirará as conclusões que entender.
Jacinto César
Nota prévia – Tudo aquilo que vou contar posso provar, mas como é óbvio vou colocar nomes fictícios.
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O Zé era na altura aluno da escola na época em que esta ainda leccionava o 9º ano. Nessa época pertencia ao Conselho Executivo da mesma.
Certo dia entrou-me pelo gabinete adentro o pai do Zé. Vinha furibundo. O seu menino era um aluno exemplar e os malandros dos professores da turma tinham acabado de “chumbar” o rapaz. E trazia provas do que dizia. Eu peguei nos papéis e fiquei meio apavorado com o que via: o rapaz tinha tido no 1º período notas excelentes, todas elas entre o 4 e o 5 (5 era o nível máximo), e no 2º período o panorama repetia-se. Naqueles segundos tudo nos passa pela cabeça, mas a explicação mais plausível que encontrava era haver um engano ao passar as notas da folha de cadastro para a folha que ia para o Encarregado de Educação. E o pai do Zé a continuar a zucrinar-me os miolos. Não conseguia pensar direito. Lembrei-me de repente de chamar a funcionária e pedir que me trouxessem o processo do rapaz.
Se quando o pai do Zé me mostrou os papéis e fiquei surpreendido, mais surpreendido fiquei quando olhei para o processo do rapaz. As notas do 1º e 2º períodos não correspondiam às dos papéis enviados para casa. As do 3º correspondiam. Mistério! Não pergunte como, mas de repente fez-se-me luz na minha cabeça: olhei para os papéis e reparei que não eram os originais mas sim fotocópias. Perguntei ao senhor se tinha feito cópias e guardara os originais, ao qual ele respondeu que não. Aquelas eram as que o filho lhe entregara. O gato começava a aparecer, pois a escola nunca envia cópias mas sim originais. Perante a minha desconfiança, pedi que chamassem o aluno. Bingo! Chegado o rapaz e na presença do pai acabou por confessar que tinha emendado as notas dos dois primeiros períodos. Para não se notar a rasura fez fotocópias que entregou ao pai. O pobre do pai ficou sem pinga de sangue e se tivesse um buraco no chão metia-se nele.
Que quero eu provar com esta e outras histórias que vou contar? Nada. Somente que as pessoas estranhas a uma escola se apercebam dos problemas que enfrentamos diariamente.
Jacinto César
Segundo o American College of Medicine, o professor pode ser classificado como um guia condutor, chefe ou comandante que possui comando, autoridade e influência. É característica de um bom professor ter liderança e ser capaz de conseguir que outros o sigam, de provocar mudanças comportamentais e funcionais para a melhora do desempenho. A liderança, portanto, é o processo de influenciar o comportamento e motivar o indivíduo a atingir melhores resultados, sendo o professor responsável pela supervisão da aula e apoio aos alunos.
Já há uns tempos que andava para escrever sobre o papel do professor na sociedade. Com a polémica recente sobre a sua avaliação, resolvi avançar o tema em relação ao que tinha previsto. Assim sendo, é hoje.
O ensino faz-se sempre com dois actores que são fundamentais: o professor e o aluno, ou seja, alguém que ensina e alguém que aprenda. Para que de verdade aconteça ensino/aprendizagem é obrigatório que quem ensina o queira fazer e quem aprende tenha vontade de o fazer. O grande problema resulta se uma das partes não estiver disposta a fazer o seu papel. Que fazer então? De uma forma muito simplista, resolve-se pondo fora do sistema o actor que não funciona e substitui-se, tal como se faz a uma peça de uma máquina que prejudica o seu funcionamento. Simples, não é? Não. Não é!
Analisemos cada um em separado.
Quem é afinal o professor e qual deveria ser o seu papel
O professor é no fundo alguém igual a todos os outros cidadãos, com todos os seus defeitos e virtudes. É filho, é pai, é marido/esposa, é fraco, é forte, tem problemas, não tem problemas, é alto, é baixo, é gordo, é magro, é pobre, é rico, enfim, uma pessoa comum, mas a quem atribuem muitas responsabilidades. Diria mesmo, demasiadas responsabilidades para uma só pessoa. Vejamos então qual é HOJE a sua função: a primeira e a principal é substituir os pais. Nem menos. Hoje “obriga-se” um professor a fazer aquilo que é da obrigação exclusiva dos pais: educar uma criança. Continuo a acreditar que um professor poderá ser um complemento da família, ao reforçar valores, corrigir ou aperfeiçoar comportamentos, além de ser um transmissor de conhecimentos. Pois o que acontece não é nada disto. Hoje um professor tem que fazer os dois papéis: o de educador e o de formador. Todos nós que somos pais sabemos a dificuldade e a responsabilidade que é educar um filho numa sociedade em que a célula base da sociedade e que é a família, está no estado lastimável que está.
Quem é então o professor? A carreira é feita em condições normais das seguintes formas:
1 – um jovem tira um curso universitário que entendeu, concorre a um lugar da sua área científica e é colocado numa escola. Se gostar e quiser continuar, faz um curso de dois anos de ciências pedagógicas (mais conhecido por estágio) e se aprovar concorre a um lugar do quadro (claro está que as coisas na prática não são bem assim, já que chegar à segunda parte já é um feito);
2 – um jovem tira um curso superior em que é orientado logo para o ensino, ou seja o chamado estágio pedagógico é parte integrante do curso.
Partindo do princípio que tudo correu bem, um professor chega a uma escola com aproximadamente 24 ou 25 anos. Podem-lhe ter ensinado tudo sobre pedagogia, pode ser um “barra” na sua área científica, pode saber tudo e mais alguma coisa, mas por acaso ele sabe o que é ser pai e educar um filho? E ainda para agravar a situação, educar os filhos dos outros? Deixo a pergunta no ar para quem quiser pensar e reflectir sobre o assunto.
Já que falámos de professores, porque não falar da escola? Que é hoje a escola? Para mim e com trinta e dois anos de experiência, não passa de um depósito de crianças e jovens. É a prisão para onde os pais despacham os filhos o dia inteiro, e para estes quantas mais horas lá passarem melhor, já que é segundo eles, que é para isso que o estado paga os professores. Mas como é que tal pode acontecer? Como é que um pai pode abdicar da educação de um filho? Como é que um pai pode conhecer verdadeiramente um filho se não fala com ele ou ao menos se apercebe dos seus problemas? Eu não respondo. Deixo a resposta para cada um que ler estas palavras. Quem ainda tiver consciência, ponha a mão nela.
Falemos agora do principal protagonista: o aluno
Quem é o aluno? É um a criança ou jovem filho de muitas mães e muitos pais. Há-os de todos os tipos e feitios e que correspondem em educação e princípios às famílias de onde são oriundas. Funcionam por modas e em “carneirada” e infelizmente nivelam-se pelos piores. Os piores em todos os aspectos são os actuais heróis numa escola. Permitam-me um parênteses: no meu tempo e no tempo de alguns que então a ler estas linhas lembram-se que havia nas escolas o chamado Quadro de Honra, onde eram colocados os nomes dos melhores alunos num determinado período de tempo. Com o advento da democracia e a massificação do ensino, achou-se que era uma prática traumatizante para os “meninos” digamos “menos trabalhadores”. Era considerada uma prática discriminatória. Passados muitos anos, foi reintroduzido qualquer coisa do género e que se chama Quadro de valor e excelência. Agora até tem fotografia e tudo. Pois bem, por acaso as pessoas sabem que a grande maioria dos que lá figuram têm vergonha de lá estarem? Por acaso as pessoas sabem que estes jovens sofrem de discriminação por serem bons estudantes? Que se pode concluir daqui? Quanto pior, melhor. É esta a mentalidade generalizada. E que fazer? Mais uma vez deixo aqui a pergunta no ar.
Que concluir disto tudo? O ensino está de rastos!
Não quero com esta retórica desculpabilizar os professores, pois como em todas as profissões, há de tudo: os maus, os satisfatórios, os bons e os muito bons.
Não quero apontar o dedo a todas as famílias, pois como atrás disse, há-as de todos os tipos. Também não quero apontar o dedo aos alunos, pois felizmente ainda há muitos de qualidade.
Por fim deixo-vos uma última pergunta: será que a avaliação dos professores nos moldes em que se quer fazer resolve todos estes problemas? Ou será que aqueles que mais insistentemente pedem a avaliação deveriam ser os avaliados?
Jacinto César
Nestes últimos tempos tenho ouvido tanta coisa, que cheguei à conclusão que não vale a pena continuar de fora da nau socialista.
Sr. 1º Ministro, rendo-me! Quer que eu tenha um cartão de “sócio” com fotografia e tudo? Mande-o lá. Quer que diga bem do seu governo? Pois bem, é só dizer o que quer que eu diga! Quer que seja amigo da sua ministra da educação? Assim seja (só não me peça para casar com ela, pois já sou casado). Quer que vá a alguma manifestação a favor do partido? Mande lá o cartaz que eu apresento-me! Quer que seja “bufo” e passar a informá-lo de tudo o que dizem de V. Ex.? Tome-o como feito!
Sr. 1º Ministro: eu já não aguento mais e estou desesperado e desamparado. Sinto-me órfão e sem protecção. Por favor, aceite-me nas suas hostes que de certeza não se arrependerá. Serei leal 24 horas por dia, lamberei as botas que achar por bem lamber, sempre disponível e pronto para o que der e vier.
Espero do fundo do coração que me aceite na “corporação”.
Do seu grande admirador
Jacinto César
PS – Já agora Senhor 1º Ministro, não necessita por acaso de um assessor competente em quase tudo? Se precisar, não hesite
Jacinto César
Não, não me esqueci, só que valores mais altos se levantaram nesse dia e não escrevi sobre o evento. Diga-se em abono da verdade que sou contra este dia, tal como sou contra qualquer dia dedicado seja ao que for.
Não recordo de quem é a frase que dizia isto: “Só haverá liberdade o dia em que esta palavra deixar de constar no dicionário”.
Porquê então o celebrar o dia da mulher? Eu não as esqueço nenhum dia! Portanto não necessito dele. Servirá então para quem? Se calhar para aqueles que se “esquecem” delas no dia a dia como seres iguais aos homens e precisam que lhes recordem. Tal como no meu escrito anterior, se fosse mulher não queria que se comemorasse tal data, antes lutaria todos os dias para que me reconhecessem os mesmos direitos que a qualquer outra pessoa, homem ou mulher, pois ao comemorá-lo estaria a mostrar que era fraca e precisava de protecção e atenções especiais.
Por acaso nós só nos recordamos das nossas mães e pais nos respectivos dias? Então para que celebrá-los? Será que não os tratámos como devíamos durante todos os outros dias do ano e aproveitamos este para expiarmos alguns “esquecimentos” e “desatenções”? E o dia da criança? Será que não as tratamos como merecem durante um ano inteiro para depois num único dia lhe darmos tudo?
Em definitivo sou contra qualquer dia deste tipo. Façamos tudo o que tivermos que fazer no nosso quotidiano com dignidade e não necessitaremos de comemorações.
Jacinto César
Mas por acaso eu sou alguma “vaca” para só produzir determinados litros de leite para obedecer às regras de Bruxelas?
Mas desde quando há quotas para o mérito? Ou há mérito ou não o há, agora quotas? Só uma mente perversa é que pode pensar numa coisa destas. Odeio quotas há muitos anos e vou explicar o porquê desta minha aversão.
Há um bom par de anos, ainda a chamada “cortina de ferro” existia, visitei a antiga Checoslováquia. Num desses dias cheguei por volta da hora de jantar a uma cidade chamada Brno (onde hoje se faz o Grande Prémio de Motociclismo). Eu e a minha mulher encontramos um hotel no centro da cidade e entramos. Tudo normal. Na recepção reparei num casal com dois filhos adolescentes que estavam sentados a um canto, e reparei neles pelo facto de serem portadores de malas de viagem muito parecidas com as que existiam em Portugal quando eu era pequenino. De cartão e atadas com cordel para não se desconjuntarem. De resto tinham uma aparência igual ás muitas pessoas que ali circulavam. Como não nos apeteceu jantar no hotel, resolvemos procurar um restaurante nas redondezas. Tudo normal! Depois da refeição resolvemos regressar ao hotel para telefonarmos à família para dar notícias, e isto umas boas duas horas depois de termos entrado no hotel a primeira vez. O casal que atrás referi continuava sentado no mesmo local onde antes o tinha visto. Fiquei curioso. Como a chamada para Portugal ainda era feita por meio de operadoras, esta estava retardada. Resolvi perguntar à recepcionista porque é que aquelas pessoas estavam ali há tanto tempo à espera. Resposta desta: no hotel há quotas para nacionais e que já tinham sido atingida. Assim teriam que esperar até às dez da noite para se saber se chegariam mais estrangeiros. Se estes não chegassem, então entrariam, senão …
Foi das situações mais tristes que presenciei na minha vida. Estrangeiros no seu próprio país. No dia seguinte rumei a caminho da Áustria. Não aguentaria outra cena igual.
Estão a ver agora a minha aversão às quotas? E se eu fosse MULHER? Bem, se fosse mulher há muito que já me tinha “escabreado” por casa das ditas quotas. Quotas para DEPUTADAS? Mas que é isto? Então não é o mérito que conta? Mas não, QUOTAS!
Quotas para funcionárias bancárias? Perdoem-me a expressão, mas que merda é esta de quotas para mulheres? Então não conta o mérito? Mas que raio de sociedade é esta em que compara as pessoas à produção de cereais, de azeite, de leite ou outra coisa qualquer? QUOTAS?
Eu como homem e como professor não posso admitir que haja quotas para o mérito. Se for mau profissional ponham-me na rua, mas se for bom, não quero sujeitar-me a subir na carreira por reforma ou por morte de um colega meu.
Gostaria que a sociedade entendesse o caso dos professores, mas que também abrisse os olhos para os casos que referi e não só. Agora QUOTAS, NÃO!
Jacinto César
Exª Senhora
Ministra da Educação
Não queria deixar passar este dia sem lhe desejar os meus sinceros parabéns pelo feito único na História de Portugal: unir uma classe profissional que nem sempre esteve junta.
Fico-lhe muito grato por pela 1ª vez na minha vida ter ido a uma “festa” daquelas. Por mim já valeu a pena. Amanhã logo se vê.
Os meus cordiais cumprimentos
Jacinto César
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