Mas se por um lado não devemos esquecer este passado que foi um pesadelo, gostaria aqui de recordar um de muitos episódios em que os intérpretes são pessoas de uma dignidade e coragem pouco comuns. O episódio que toda a gente conhece é o do Cônsul em Bordéus, Aristides Sousa Mendes, mas há outro pouco, conhecido em Portugal e que agora foi tornado público: refiro-me ao Ministro Plenipotenciário de Portugal na Alemanha Nazi, Veiga Simões. Transcrevo de seguida a carta enviada ao Governo Português da época.
“Confidencial.
Berlim, 14 de Setembro de 1938
Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros,
Excelência
Os recentes diplomas publicados por este Governo no prosseguimento da sua incansável perseguição aos judeus, contêm disposições que lhes vêm criar uma situação que para a grande maioria será completamente insustentável. Não se lhe encontra, por mais que se procure, uma solução para a simples manutenção diária dos milhares de israelitas que ainda se encontram neste país. Aos médicos passa a ser proibido exercer clínica, mesmo livre, e foram-lhes já denunciados todos os contratos de arrendamento dos seus consultórios para o fim do corrente mês. Aos comerciantes, a arianização progressiva de todos os ramos comerciais, mesmo os retalhistas, vai-os despojando de todos os seus haveres e coarctando-lhes toda a possibilidade de actividade. Eram estas as duas classes que, entre os judeus, ainda até agora iam podendo suportar, embora mal, a situação que lhes haviam deixado. Até isso vai acabar e, como medida final e vexatória, acaba de ser imposto a todos os judeus que não tenham já um nome constante duma lista oficialmente publicada – e que segundo corre foi elaborada com o propósito de abranger o menor número – acrescentar ao seu próprio nome e usar em todos os actos da sua vida social e particular, a partir do dia 1 de Janeiro próximo, e sob penas severíssimas de prisão e multa, o nome “Israel” ou “Sara” conforme o sexo.
O conjunto destas medidas vem atingir alguns cônsules de Portugal neste país que não posso precisar quais sejam na totalidade – talvez uns quatro – mas de que desejo destacar dois que me parecem os únicos inteiramente merecedores da atenção do Governo Português: os cônsules em Frankfurt e Nuremberga, Srs. Gustav Mayer-Alberti e Eduard Lindenthal. Trata-se de dois velhos funcionários consulares – o primeiro tem 83 anos e é Cônsul de Portugal há 42 e o segundo é-o há mais de 20 anos – que têm sempre demonstrado pelo serviço e pelo nosso País uma dedicação perfeita, prestando por vezes a esta Legação serviços altamente importantes quer em matéria informativa quer noutras de que os haja encarregado, a par duma perfeita execução das suas funções propriamente consulares.
Ambos eles vão ser atingidos pelas últimas disposições legais do Reich sobre judeus e a situação em que vão encontrar-se virá a ser dentro em muitos poucos meses, totalmente insustentável. E chega-me agora, particularmente mas de fonte diplomática, a informação de que brevemente o Governo do Reich vai solicitar de todos os Governos a substituição dos seus cônsules de raça judaica.
Estas circunstâncias parecem-me oferecer a oportunidade para o Governo Português olhar humanamente para esses dois velhos servidores e estender-lhe a sua protecção, pela única forma por que pode prestar-lha: concedendo-lhes a nacionalidade portuguesa. Ambos residiram bastante tempo em Portugal, creio que mais do que o necessário para aquisição do direito de naturalização, ambos falam correctamente a nossa língua e de ambos o Estado tem recebido os mais valiosos serviços que podiam prestar-lhe dentro da sua esfera de acção.
Estas considerações de justiça humana levam-me a fazer a V. Exa. a proposta concreta de concessão da nacionalidade portuguesa aos dois funcionários mencionados, com dispensa de quaisquer formalidades não essenciais. E constando-me que por razões relacionadas com a guerra em Espanha e durante a sua duração está suspensa a concessão de patentes de nacionalidade, devo esclarecer V. Exa. que, no caso sujeito, uma demora de alguns meses inutilizará por completo uma eventual resolução favorável, pois em muito curto prazo a nova legislação alemã terá atingido os dois cônsules com todos os seus efeitos.
Se V. Exa. se dignar concordar com esta proposta, posso assegurar-lhe que terá praticado um acto de nobre humanidade, digno de um Estado que não esquece nem abandona os seus velhos e leais servidores, e que é ao mesmo tempo a única recompensa que pode ser atribuída aos dois Cônsules, inteiramente dignos dela a todos os títulos.
A Bem da Nação
Veiga Simões”
Claro que a carta foi ignorada, mas fica a ideia que sempre houve e sempre haverá portugueses BONS.
Jacinto César
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