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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Ainda o S. Mateus

Quando me encontrava em Moçambique ao serviço do país entre os anos de72 e 74,  havia datas difíceis de ultrapassar. Criavam em mim um estado de angustia muito grande e sentia como que um aperto no peito e um nó na garganta. Eram as lembranças da família e amigos. O natal era uma dessas datas que custavam muito a suportar, até porque é uma quadra do ano em que por princípio toda a família se reúne. As saudades aumentavam exponencialmente. Esse fenómeno era compartilhado por todos o que comigo se encontravam naquela situação. Nesses tempos e nesses lugares, tínhamos que nos acostumar que aquela era a nossa família e 
confortávamo-nos uns aos outros.

E quando chegava o S. Mateus? Bem, aí as coisas tornavam-se ainda piores para mim, pois nas "redondezas" eu era o único natural de Elvas e a solidão era completa. Os dias 20 de Setembro de 1973 e de 1974 devem ter sido dos piores dias da minha vida até então. Cheguei a trautear o Hino do Senhor Jesus da Piedade quase em silêncio, e com uma lágrima no olho, quanto mais não fosse para marcar a minha presença em espírito. Dias difíceis esses mesmo num contexto de guerra.

E porque volto eu a este assunto? Porque mais uma vez é assunto de polémica e desgraçadamente motivo para guerrilhas políticas. Por mais que não queira, cada vez estou mais farto da política e dos políticos. Começo quase a sentir saudades do "antigamente" mesmo com todos os problemas inerentes a uma ditadura. Hoje começa a tornar-se impossível fazer seja o que for sem que os políticos metam o nariz e queiram de qualquer forma controlar acontecimentos por mais pequenos que sejam. Mas que democracia esta!

Mas voltemos ao S. Mateus e sua organização. No post que publiquei no dia 27 de Setembro advogava que as duas festas deveriam ser separadas e expliquei o porquê. Dizia então que a Confraria devia ocupar-se unicamente das Festas de Igreja, entregando a organização da Feira de S. Mateus à Câmara Municipal, independentemente de quem ocupasse a cadeira do poder. Afirmei-o e mantenho o que disse mesmo que haja políticos a concordar e outros a discordar. Da Confraria tenho uma experiência indirecta muito grande (o meu pai esteve lá 20 anos). Devido ao amadorismo dos seus membros, os problemas eram mais que muitos e as dificuldades enormes, e isto a todos os níveis, desde os financeiros até à organização propriamente dita. Recordo até um episódio caricato que se passava todos os anos: a câmara dava um subsídio à confraria, mas esta no dia 21, tinha que oferecer um almoço às entidades civis e religiosas na Pousada de S. Luzia. Lá se ia o subsídio. Há ainda vivos uns quantos mesários (incluindo o meu pai) que podem confirmar isto. Ora como a mesa da confraria continua composta por amadores, mesmo que cheios de boa vontade, estes deveriam dedicar-se unicamente às festa religiosas. Com as receitas geradas pela bandeja, poderiam até melhorá-las, reintroduzindo por exemplo a presença de um coro e uma orquestra de câmara como dantes se fazia e que presumo por falta de dinheiro se deixou de fazer. Tinham todos os ingredientes para tornar estas festas mais dignas, dado que a disponibilidade de tempo era maior, os problemas menores e as aflições financeiras reduzidas a zero.

A organização da feira passaria integralmente para o Município, e não vejo aqui mal algum, antes pelo contrário, só traria benefícios para todos. A feira poderia ser gerida de uma forma profissional e rentabilizada sob o ponto de vista económico, tal como expliquei no post anteriormente referido.

Dirão alguns: as festas passariam a andar ao sabor do calendário eleitoral! Pois, e então os membros da confraria não podem eventualmente, também eles estarem enfeudados ao poder instalado e acontecer o mesmo? Neste ponto, acho que cada cidadão tem as suas responsabilidades ao não ter a memória curta e só se lembrar do que foi feito em ano de eleições. Eu acredito que as pessoas não esquecem.

Por outro lado, não nos podemos esquecer que a política é um polvo e que tem tentáculos em toda a parte. Não me venha dizer que há políticos que abdiquem de controlar tudo e todos. Basta ver o que acontece a nível nacional de cada vez que um partido ganha eleições: é ver uns saírem e outros a entrar para os mais variados cargos. Passado uns anos tudo roda novamente. Não acredito em políticos com pureza de intenções e se para lá entraram assim depressa perdem essa pureza para não serem cilindrados. Essa história de dizerem que “se lá estivessem as coisas eram diferentes” já não convence ninguém! Nem os mais “distraídos”.

 

Jacinto César

 

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Tasca das amoreiras às 23:09
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1 comentário:
De António miguens a 19 de Outubro de 2007 às 16:55
Termine-se com essa réstea de feudalismo.
Cativos vitalícios transmissíveis?
Só me lembra o do meu avô em Alvalade para o qual pagou em 1956 e têm escritura.


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