No artigo anterior referi alguns dos elementos perturbadores do bom funcionamento do Sistema Educativo em Portugal. Analisei um a um os intervenientes no processo e as suas responsabilidades no insucesso escolar que se verifica há uns anos a esta parte.
Deixei para último lugar aqueles que considero os maiores responsáveis pelo colapso da educação no nosso país: os PAIS e a FAMÍLIA.
Contra mim falo, pois também sou pai e sei que não devo ter sido um pai e educador exemplar. Mas à frente.
Com o evento do 25 de Abril, repentinamente os valores sociais tradicionais perderam-se e até se atingir o desmembramento familiar foi um passo. A unidade básica da sociedade foi-se perdendo e desestruturou-se. Não quero com isto dizer que o regime anterior era melhor, só que talvez por culpa desse mesmo regime, que não soube ou não quis promover uma transição suave para a democracia, deu origem a uma rotura social brusca. A liberdade chegou como um raio e as pessoas não estavam preparadas para tal. Com isto não quero dizer que o 25 de Abril não era necessário, antes pelo contrário. Só que as mudanças foram muito rápidas.
Mas falemos de Educação e das mudanças para o melhor e o pior que a revolução nos trouxe.
Até aí a família auto-controlava-se e auto-regulava-se. Havia valores que eram “sagrados” e ninguém se desviava do caminho. As crianças e os adolescentes recebiam educação em casa, eram acompanhados no seu dia-a-dia pelos mais velhos e iam para a escola receber a formação que os tornaria homens. Os pais tentavam dentro das suas possibilidades acompanhar a vida escolar dos seus filhos e saber do seu percurso. Se o insucesso se aproximava, havia sempre, ou quase sempre, medidas compensatórias para que tal não acontecesse. Havia por parte da família um interesse permanente em todas as actividades escolares ou extra-escolares. Sei, por experiencia própria, que nem sempre os meios utilizados eram os melhores, mas o que é certo é que quase sempre resultavam. A escola era um espaço de respeito. Tinha defeitos? Muitos! Tinha virtudes? Muitíssimas!
Este sistema se tivesse evoluído progressivamente com o tempo era muito natural que não se tivesse chegado a este estado de coisas. Mas assim não aconteceu.
E agora como se processam as coisas? No actual contexto e de um modo muito geral os alunos de uma escola provêm de dois tipos de famílias: as estruturadas ou mais ou menos estruturadas, e as famílias desfeitas (cada vez mais vulgar, infelizmente).
Olhemos para as primeiras e para o seu modo de vida actual. São constituídas geralmente pelos pais e em alguns casos (poucos), algum dos avós. Ambos trabalham e como tal levam o dia fora de casa (as dificuldades da vida assim o exigem). Os filhos são “despejados” nas escolas e estas que tomem conta deles, de preferência, o dia inteiro. A escola que os eduque e os forme. A escola que os substitua a eles, pais! O contacto com os filhos acontece a maior parte das vezes somente à hora de jantar. Por pouco tempo que fosse, e até à hora de deitar sempre haveria umas horas para conversar e conviver com os filhos e saber dos seus problemas e necessidades. Só que infelizmente há sempre uma novela, umas notícias e uns futebóis a interporem-se. Não há tempo! Ponhamo-nos nós adultos no papel dos jovens. Que faríamos? Pois bem, os pais que deveriam ser o modelo, deixaram de o ser. E que modelo escolhem os jovens? Qualquer e nem sempre o melhor e depois a consequências estão à vista. Perante o insucesso escolar consumado com mais algumas “tropelias” pelo caminho, que fazem os pais? Disparam em todas as direcções. Tentam encontrar sempre um culpado para a ocorrência, mas que não os próprios. É muito difícil admitir a culpa própria e muito mais fácil apontar o dedo a terceiros.
Agora se juntarmos a tudo isto os problemas das famílias semi-estruturadas, onde os próprios pais são o pior dos problemas, como serão os filhos? Há hoje como é sabido de todos, famílias a sofrerem de problemas gravíssimos, como o alcoolismo, a droga, a violência doméstica entre outros. Que capacidade terão uns pais assim de educar os filhos? Com exemplos destes em casa, como será a personalidade de uma criança criada numa família assim? Alguém tem dúvidas do que irá acontecer, salvo raras excepções, no futuro a estes jovens? Eu não as tenho porque infelizmente lido com elas diariamente. O insucesso e o fracasso são o presente e o futuro destes jovens e daí até à delinquência vai um pequeno passo. E se perguntarmos aos pais quem são os culpados da situação? Invariavelmente será de todos e menos deles. E para mostrarem que assim é são capazes de tudo como se esse “tudo” demonstrasse algo. É preciso ir à escola e insultar-se toda a gente? Não há problemas! É preciso recorrer-se à violência? Mas aonde é que está a dúvida?
E assim se transforma a escola numa espécie de prisão, onde os que estão dentro não podem sair para fora e os de fora não podem passar para dentro. E para isso há a polícia à porta! E para isso há seguranças dentro.
Falemos agora nas famílias desestruturadas ou monoparentais. Estes casos são cada vez mais frequentes, pois hoje todos os pretextos servem para que uma família se destrua. Lembro-me com tristeza e ironicamente dito por um cómico brasileiro aquela frase que andou muito tempo nas bocas dos portugueses: “ Casa, separa, casa separa …”. E os rebentos destes casamentos? Como serão? Há muitos que conseguem superar os traumas, mas muitos outros nunca o conseguirão. A educação é feita na base do empurra agora para o pai, ora logo para a mãe num pingue-pongue interminável e por vezes o pingue-pongue é feito com familiares mais afastados quando não por terceiros. Mas estão como é? Se eu fosse filho num caso deste perguntaria: e EU? Que vai ser de mim e do meu futuro quando os meus próprios pais não querem saber de mim?
Este é o panorama actual. Este é o material humano que é trabalhado na escola diariamente. E que fazer?
Por mim e em primeiro lugar seria o governo do país a encher-se de coragem e sem pensar nos votos que perderia, apontar o dedo a quem devia.
Em segundo lugar criar obrigatoriamente uma ESCOLA DE PAIS.
Eu cá por mim ainda acrescentaria, se não podem ser bons pais, não tenham filhos, porque assim só estamos a contribuir para a infelicidade das próximas gerações.
Jacinto César
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