Caro Velho Conselheiro Zé de Mello
O seu post de hoje sobre o ranking dos concelhos do país em qualidade de vida provocou em mim alguns sentimentos. De início não pensei muito no assunto. Depois de pensar um bocadinho, porém, fiquei preocupado, curioso, espantado e finalmente compreendi aonde se queria chegar com o estudo feito. Passo a explicar-me.
Depois de ver a pequena tabela que colocou, e já que teve o cuidado de pôr o link para o estudo completo, acabei por tirar o documento e dei-me ao trabalho de o ler. Sempre desconfiei de estatísticas e esta não fugiu à regra; mas dentro dos poucos conhecimentos que tenho sobre tal assunto, fui tentando analisar o estudo e, depois de digerir as 49 páginas cheguei a uma conclusão curiosa, a qual deixo para o fim.
A estatística, em minha opinião, é a ciência de manipular números em função das conveniências, uma arma utilizada com frequência pelos políticos para justificar os seus actos. Relembro-lhe a velha história do frango que me dispenso de contar por ser do conhecimento geral.
Mas vamos analisar alguns dos indicadores que serviram para o estudo, que aparecem na página 21 e são denominados por Condições Materiais. Para ilustrar melhor a minha opinião tomemos como exemplo dois concelhos virtuais: um com 5 mil habitantes que passo a denominar por A e outro com 20 mil denominado por B.
1 - O concelho A tem 1 estação de correios e B tem
2– O concelho A tem 1 biblioteca e o B tem 1.
3 – O concelho A tem um equipamento cultural e o B tem também 1.
4 – O concelho A tem um museu e o B tem 1.
5 – O concelho A tem 1 Centro de Saúde e o B tem também só 1.
6 – O concelho A tem 1 Escola Secundária e o B tem 1 também.
Para chegar onde quero, basta estes 6 dados porque seria fastidioso colocá-los todos. Perante os que coloquei, logo à partida diríamos que o concelho A estava favorecido em relação ao concelho B já que tendo um quarto da população tinha em quantidade as mesmas Condições Materiais. Certo? Errado.
Passo a explicar: num estudo deste tipo são levados em conta (autor do estudo) a quantidade dos bens materiais mas não a QUALIDADE dos mesmos. Explico-me melhor! Vamos ao caso da Biblioteca. A do concelho A tem uma e vamos supor que tem vinte mil obras para consulta, mas a do concelho B tem quinhentas mil obras. Ambos os concelhos têm 1 biblioteca! Mas pergunto eu: qual deles está mais bem servido?
Outro exemplo: ambos concelhos têm 1 museu. O do concelho A é um daqueles pequenos museus de antropologia local e o do conselho B é um museu com secções de pintura, escultura, antropologia, arqueologia, etc. Qual deles está melhor fornecido? O B, mas perante o estudo conta como sendo um independentemente da QUALIDADE.
O mesmo raciocínio se aplica a todos os indicadores.
O meu caro Zé de Mello come um bife daqueles que é necessário ter dentes de aço para o trincar. Eu delicio-me com um bife de lombo. Ambos comemos 1 bife. A estatística é mesmo isto!
Analisando a tabela, para quem conhecer razoavelmente o país, há por ali incongruências que qualquer pessoa identifica; mas alguém me convence que em Almada, no Barreiro ou Vila Franca de Xira se vive com mais qualidade que em Évora, por exemplo?
Voltando atrás, há um indicador que até se torna cómico ser considerado para o estudo e que se refere ao número de empréstimos bancários para aquisição de casa por mil habitantes. Quem é que nos pode garantir que um concelho que tem um maior número de empréstimos por mil habitantes tem melhor qualidade de vida que outro que os tenha em menor número? Pode até significar o contrário, ou seja: o que tem menor número de créditos ser o que tem melhor qualidade de vida, para tal bastando que neste último caso haja um maior número de habitantes com casas já pagas. Ou não?
Coisas de estatísticas.
Finalmente a conclusão que tiro do estudo e que os autores do mesmo quase confessam: a Beira Interior e PRINCIPALMENTE a Cova da Beira estão muito mal classificados, ocupando muitos dos seus concelhos os últimos lugares. O que quererá dizer isto? Ainda não entendeu? Eu explico! Estas zonas do país têm sido ao longo destes últimos anos extremamente favorecidos, mas ainda não chega. Querem mais. E não sabe porquê? Veja a naturalidade de uma grande parte dos políticos com influência no nosso país e está tudo dito. Já reparou que a Covilhã, além de ter uma universidade já bastante grande e um hospital central associado a uma faculdade de medicina, aparece numa posição humilhante enquanto algumas cidades do Algarve que não têm nada destas coisas aparecem nos primeiros lugares? Porque será? É a estatística ao serviço dos políticos a justificar a canalização de mais fundos para aquelas regiões, ou o estudo não tivesse sido feito pela própria Universidade da Beira Interior.
Coisas das estatísticas.
Jacinto César
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