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Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Coisas das estatísticas

Caro Velho Conselheiro Zé de Mello

 

 O seu post de hoje sobre o ranking dos concelhos do país em qualidade de vida provocou em mim alguns sentimentos. De início não pensei muito no assunto. Depois de pensar um bocadinho, porém, fiquei preocupado, curioso, espantado e finalmente compreendi aonde se queria chegar com o estudo feito. Passo a explicar-me.

 

 Depois de ver a pequena tabela que colocou, e já que teve o cuidado de pôr o link para o estudo completo, acabei por tirar o documento e dei-me ao trabalho de o ler. Sempre desconfiei de estatísticas e esta não fugiu à regra; mas dentro dos poucos conhecimentos que tenho sobre tal assunto, fui tentando analisar o estudo e, depois de digerir as 49 páginas cheguei a uma conclusão curiosa, a qual deixo para o fim.

 

 A estatística, em minha opinião, é a ciência de manipular números em função das conveniências, uma arma utilizada com frequência pelos políticos para justificar os seus actos. Relembro-lhe a velha história do frango que me dispenso de contar por ser do conhecimento geral.

 

 Mas vamos analisar alguns dos indicadores que serviram para o estudo, que aparecem na página 21 e são denominados por Condições Materiais. Para ilustrar melhor a minha opinião tomemos como exemplo dois concelhos virtuais: um com 5 mil habitantes que passo a denominar por A e outro com 20 mil denominado por B.

 

 

1 - O concelho A tem 1 estação de correios e B tem

2– O concelho A tem 1 biblioteca e o B tem 1.

3 – O concelho A tem um equipamento cultural e o B tem também 1.

4 – O concelho A tem um museu e o B tem 1.

5 – O concelho A tem 1 Centro de Saúde e o B tem também só 1.

6 – O concelho A tem 1 Escola Secundária e o B tem 1 também.

 

Para chegar onde quero, basta estes 6 dados porque seria fastidioso colocá-los todos. Perante os que coloquei, logo à partida diríamos que o concelho A estava favorecido em relação ao concelho B já que tendo um quarto da população tinha em quantidade as mesmas Condições Materiais. Certo? Errado.

 

Passo a explicar: num estudo deste tipo são levados em conta (autor do estudo) a quantidade dos bens materiais mas não a QUALIDADE dos mesmos. Explico-me melhor! Vamos ao caso da Biblioteca. A do concelho A tem uma e vamos supor que tem vinte mil obras para consulta, mas a do concelho B tem quinhentas mil obras. Ambos os concelhos têm 1 biblioteca! Mas pergunto eu: qual deles está mais bem servido?

 

Outro exemplo: ambos concelhos têm 1 museu. O do concelho A é um daqueles pequenos museus de antropologia local e o do conselho B é um museu com secções de pintura, escultura, antropologia, arqueologia, etc. Qual deles está melhor fornecido? O B, mas perante o estudo conta como sendo um independentemente da QUALIDADE.

 

O mesmo raciocínio se aplica a todos os indicadores.

 

O meu caro Zé de Mello come um bife daqueles que é necessário ter dentes de aço para o trincar. Eu delicio-me com um bife de lombo. Ambos comemos 1 bife. A estatística é mesmo isto!

 

 Analisando a tabela, para quem conhecer razoavelmente o país, há por ali incongruências que qualquer pessoa identifica; mas alguém me convence que em Almada, no Barreiro ou Vila Franca de Xira se vive com mais qualidade que em Évora, por exemplo?

 

 Voltando atrás, há um indicador que até se torna cómico ser considerado para o estudo e que se refere ao número de empréstimos bancários para aquisição de casa por mil habitantes. Quem é que nos pode garantir que um concelho que tem um maior número de empréstimos por mil habitantes tem melhor qualidade de vida que outro que os tenha em menor número? Pode até significar o contrário, ou seja: o que tem menor número de créditos ser o que tem melhor qualidade de vida, para tal bastando que neste último caso haja um maior número de habitantes com casas já pagas. Ou não?

 

Coisas de estatísticas.

 

 Finalmente a conclusão que tiro do estudo e que os autores do mesmo quase confessam: a Beira Interior e PRINCIPALMENTE a Cova da Beira estão muito mal classificados, ocupando muitos dos seus concelhos os últimos lugares. O que quererá dizer isto? Ainda não entendeu? Eu explico! Estas zonas do país têm sido ao longo destes últimos anos extremamente favorecidos, mas ainda não chega. Querem mais. E não sabe porquê? Veja a naturalidade de uma grande parte dos políticos com influência no nosso país e está tudo dito. Já reparou que a Covilhã, além de ter uma universidade já bastante grande e um hospital central associado a uma faculdade de medicina, aparece numa posição humilhante enquanto algumas cidades do Algarve que não têm nada destas coisas aparecem nos primeiros lugares? Porque será? É a estatística ao serviço dos políticos a justificar a canalização de mais fundos para aquelas regiões, ou o estudo não tivesse sido feito pela própria Universidade da Beira Interior.

Coisas das estatísticas. 

 

PS - Caro Zé de Mello, o estudo é de 2007 e elaborado com os dados de 2004. 

Jacinto César 

 


Tasca das amoreiras às 01:44
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5 comentários:
De Anónimo a 24 de Julho de 2009 às 08:06
Xiiiiii o que este homem teve de escrever para conseguir defender o Rondão, tanta cambalhota Jacinto ainda partes a coluna.


De Zé de Mello a 24 de Julho de 2009 às 08:30
Caro Jacinto,

Muito obrigado pela sua leitura e comentários.
No que se refere ao seu exemplo o próprio relatório da UBI responde que os factores de QUALIDADE são medidos através da despesa que uma Câmara assume por exemplo para uma Biblioteca: se ela tem muitos leitores (factor tido em conta) terá que assumir mais despesas. outro exemplo a taxa bruta de natalidade, taxa bruta de mortalidade e índice de longevidade. ora se há saúde há qualidade de vida? ou ainda a variavel da taxa de emprego e postos de trabalho por 1000
habitantes, ora se há desemprego há qualidade de vida?

Enfim, apenas comentar-lhe que o trabalho foi divulgado a semana passada em todos os medias nacionais e a curiosidade de saber o que este dizia sobre Elvas levou este Velho Conselheiro a publicita-lo.

Elvas merecia mais? Sim! vamos trabalhar TODOS para que se viva melhor em Elvas...


De Tasca das amoreiras a 24 de Julho de 2009 às 13:12
Caro Zé de Mello

Com todo o respeito, não tome isto como uma polémica, mas simplesmente como uma troca de ideias, até porque não ponho em dúvida a honestidade intelectual do meu amigo. Antes pelo contrário, sempre o tive em conta como uma pessoa cujos interesses maiores são a nossa cidade. Dito isto, permita-me discordar mais uma vez da sua análise.

Se ontem escolhi dois concelhos virtuais, vamos hoje escolher dois bem reais e que ambos conhecemos como a palma das nossas mãos: Elvas e Campo Maior. Vejamos então os resultados parciais e totais:
1-Campo Maior
Factor educação e mercado de emprego – 119,5014
Factor infra estruturas – 107,1323
Factor ambiente, económico e habitacional – 36,58429
Média – 99,73879

2 - Elvas
Factor educação e mercado de emprego – 124,6951
Factor infra estruturas – 74,87688
Factor ambiente, económico e habitacional – 34,58429
Média – 92,90151

Campo maior ocupa o 69º lugar e Elvas o 89º.
Agora repare nas discrepâncias dos valores.
No factor Emprego Campo Maior está seguramente em melhor situação que Elvas. Para tanto basta ver os últimos números do desemprego. Mas não, Elvas vai à frente.
No factor que desequilibra mais a classificação e que são as Infra estruturas, Elvas está nitidamente à frente de Campo Maior. Veja então a classificação das duas localidades. Ridículo. O último factor aparece quase empatado. O caro Conselheiro acredita nestes números? Principalmente o valor em Infra estruturas que nos atira no ranking para o fundo, factor esse que é precisamente o que tem maior peso em Elvas? Estranho? Não, estatísticas.
Os meus cumprimentos

Jacinto César



De Tasca das amoreiras a 24 de Julho de 2009 às 10:17
Caro Jacinto
Então tu desconheces os factores de qualidade de vida da Amadora!...
Viver paredes-meias com a Cova da Moura
Viver empacotado em prédios sem uma simples varanda
Não conhecer os vizinhos de prédio quanto mais os de rua
Passar várias horas por dia no IC-19 para ir trabalhar ou em alternativas viajar como sardinha em lata nos comboios da CP.
Isto meu amigo é qualidade de vida!...

António Venâncio


De Hugo a 28 de Julho de 2009 às 18:20
Acerca deste ralatório, perdi alguns minutos a tentar perceber a metodologia utilizada para a elaboração dos mesmo, e as conclusões que retirei em Relação a Elvas e ao estudo Foram as Seguintes:

1- O factor 1 tem peso muito significativo das variáveis: Educação,População; Mercado de Trabalho e Rendimento/Consumo; Elvas Apresenta 124,6951 de pontução maior que por exemplo Campo Maior que fico a nossa frente.


2 - O factor 2 tem peso igualmente muito significativo das variáveis:
Equipamentos Culturais,Equipamentos de Saúde e Infra-Estruturas Básicas
Elvas tem uma valorização de 74,87088 contra 107,1323 de Campo Maior, aqui realço o seguinte se formos ver Elvas tem um Coliseu, tem Inumeros Museus, a nível de Infra Estruturas esta muito mas bem equipado que Campo Maior, mas este indicador mediu a utilização das infra estruturas, ou seja de que nos serve ter essas estruturas se não a utilizamos, falta de politica de educação cultural, de educação civica.

3- O factor 3 é sobretudo explicado pelas variáveis:
Ambiente, Dinamismo Económico e Mercado de Habitação
Elvas teve 34,18448 e Campo Maior 36,58429 este factor esta directamente ligado com os indicadores Mercado de
Habitação, Mercado de Trabalho e Rendimento/Consumo.
Ou seja Campo Maior tem um concelho sem desemprego com várias unidades fabris(fábrica dos pneus que Rondão não Consegui ou não teve vontade de a ter em elvas).

Assim depreende-se o seguinte deste Estudo Elvas: apresenta excelente condições para cá morar tem inumeros "infra-estruturas", mas falta: Emprego; Lares de Idosos e de Criança a níveis acessíveis, Falta Política de Educação; Politca de Apoio ao Pequenos Comerciantes já instalados; Politica de Fixação de Jovens; De Jovens que sairam de Elvas para estudar; Falta de Visão Estrategica e de Futurismos.

Atentamente
ramboelvas@gmail.com
Hugo


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