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Terça-feira, 11 de Agosto de 2015

Forte da Graça - 15

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Testemunhos

Esta entrevista é um dos mais importantes testemunhos que temos assistido sobre o Forte de Nossa Senhora da Graça também conhecido pelo Forte de Lippe. É um depoimento de um militar do Quadro Permanente que esteve colocado por curtos períodos de tempo mas abrangeu quase duas décadas. O senhor António Piçarra esteve aqui colocado em 1959, 1965, 1973 e 1978, pelo que o seu conhecimento sobre a vida diária deste forte é de uma riqueza excepcional.


Entrevistadora - Sr.º António Piçarra que tinha que cargo no Exército na altura quando o forte estava em funcionamento?

António Piçarra – Era 2.º Sargento e estive cá como 1.º sargento do Exército.

Entrevistadora - Muitos foram os serviços militares que fez neste Forte…

António Piçarra - Foram vários serviços, nas secretarias prestei bastantes, também trabalhava com os presos, na companhia disciplinar, e vários serviços, arrecadações e tratava de muita coisa e depois faziam os serviços diários, que eram Sargento de Dia, Sargento da Guarda, e pronto canalizar os presos para os vários serviços que faziam cá no Forte que faziam muito serviços cá no forte, eles estavam presos mas ó fim o cabo tinham que ocupar o tempo, havia carpintarias, serralharias, esses serviços todos, além do celebre barril da água que eles tinham que ir buscar à fonte do Marechal.

Entrevistadora - Como é que era ir então buscar esse barril à fonte do Marechal?

António Piçarra - Era Fácil. Eram chamados pelo Sargento de Dia, por eu muitas vezes, depois vinham em formatura, com o barril às costas iam ao Marechal, que é aqui a 100 ou 200 metros daqui do forte, e depois para cima vinham com barril com água, mas não vinha cheio, o barril vinha quase um pouco mais de meio, que era para vir a dançar para ser mais difícil a eles trazer o barril para o Forte da Graça.

Entrevistadora - Era como se fosse um castigo diário…

António Piçarra - Era um castigo diário, eles tinha no verão tinham sete formaturas de barrilada, não eram sempre os mesmos, havia na altura em que eu estive cá em 1965 havia cá 463 presos. Os impedidos faziam a 1.ª barrilada, que eram para ficar depois livres para os vários serviços que eles estavam impedidos e depois à tarde antes do jantar iam buscar outra barrilada, os mesmo impedidos.
Durante o dia eram os que estavam ai a cumprir as penas, não tinham mais nada que fazer, eram nomeados para ir ao barril várias vezes por dia no verão havia 7 barriladas, no Inverno como os dias eram mais pequenos eram 5 barriladas.
Mas todas de castigo, quer dizer a água fazia falta, mas muitas vezes os barris eram tantos - por cada barrilada eram 70 homens - eram chamados para o barril 70 homens de cada vez, durante o dia no verão eram 490 barris de água que vinham para cima e a água não era necessária tanta, era só para lavagens, para cozinhas, banhos e coisas assim do género. Muitas vezes a água não era necessária e era lançada para a cisterna, era canalizada para a cisterna, ... faziam sempre falta, ficava ai armazenada caso houvesse falta de água na Fonte do Marechal.

Entrevistadora - Além desse chamado barril que outros castigos que eram aplicados ao presos aqui no Forte ?

António Piçarra - Eram aplicados quando eles cometiam penas, que eles aqui também metiam o pé na argola. Muitas vezes iam ao barril e tentavam fugir da barrilada, atiravam com o barril ao chão e fingiam que iam apanhar o barril, mas não era para apanhar o barril, era para escapar e depois eram apanhados.
Eu lembro-me de uma vez que dois presos estava lá fora a apanhar erva e fugiram e o Oficial de Dia diz-me assim “Ó Piçarra vais apanhar estes dois indivíduos à Estação de Caminhos-de-Ferro de Santa Eulália, porque eles eram do norte e eles vão lá apanhar o comboio." e eu fui e apanhei-os lá. Quando vieram para o Forte foram metidos cada um em sua prisão, mas são prisões que eram autênticos isolamentos, e eles ali coitaditos não tinha campo para dormir, não tinham espaço para dormir, tinham que fazer as necessidades dentro daquele recinto e 30 dias ali estiveram sem ver sol sem ver nada, que o sol não entrava lá, tinham só tinha uns buraquitos numa porta de ferro assim à altura da cabeça que o sol não entrava lá, sé entrava um bocado de claridade que não se notava nada, lá dentro estavam sempre às escuras e depois ao fim de 30 dias eram postos cá fora.
Estes castigos eram os mais duros para eles, além de uma casa redonda que havia ali que vertia agua e eles estavam dentro da prisão com a água vertia água e apanhavam a água.

Entrevistadora -Os presos que estavam aqui no forte da Graça que crimes é que cometiam?

António Piçarra - Penas disciplinares, deserção no tempo da guerra colonial, muitos não queriam ir para o Ultramar e iam para o estrangeiro e eram apanhados e vinham para aqui. O o artigo 201º eram seis meses e o artigo 202º eram dois anos de prisão.

Entrevistadora – Srº Piçarra quando anos esteve aqui de serviço no Forte da Graça?

António Piçarra – Vim para cá a 1.ª vez como 1.º Cabo, fiz aqui um Cabo de Rancho em Dezembro de 1959.

Entrevistadora – O que é um Cabo de Rancho?

António Piçarra - Eu era 1.º Cabo e era encarregado da cozinha do rancho geral, era responsável pela higiene da cozinha e pela alimentação, tinha de programar tudo. Todos os dias à Manutenção Militar que era dentro da cidade de Elvas e até foi um mês muito doloroso para todos nós, que choveu muito e nós cada vez que tinha-mos que ir à Manutenção Militar com uma carroça com puxada por dois muares apanhávamos uma molha desde a saída até à chegada.

E depois estive cá em 1965 quando vim do Ultramar, de Angola, fui colocado aqui como 2.º Sargento e aqui prestei serviço durante dez meses, fui novamente mobilizado, fui novamente para Angola, depois fui para Moçambique e depois quando regressei em 1973 fui colocado no CICA 3 em Elvas e depois em 1978 colocara-me aqui no Forte da Graça outra vez como 1.º Sargento, estive aqui mais dez meses e passados esse tempo para Santa Margarida.

Entrevistadora - Eram serviços ligeiros ou surgiam alguns problemas de vez em quando?

António Piçarra – Surgiam problemas às vezes com os incorporados, não lhe chamávamos presos mas sim Soldados Incorporados, havia até aqui um Jornal que era Dragão

Entrevistadora – Também se praticava aqui o jornalismo no Forte da Graça?

António Piçarra – Sim eram os próprios incorporados que faziam esse jornal orientados pelo Comando do Forte, havia a censura e também havia a censura do correio, o correio deles era censurado por nós, Sargentos e Oficiais, aqui no Forte da Graça, tudo o que pudesse vir lá de fora que não pudesse ser entregue aos presos nos cortávamos tudo.
E outros serviços eram só esses, tinham os impedimentos, nos vários serviços da carpintaria, serralharia e barbearia também, aqueles mais bem comportados os outros não, os outros assim que acabavam de chegar ao forte iam paras as Secções. Existiam três secções. A 1.º Secção para aqueles mais bem comportados, depois havia a 2.ª Secção na transição e haviam os que chegavam e os que chegavam ficavam na 3.ª Secção, nos ainda não conhecíamos bem o sistema deles.

Entrevistadora – Falou-me em censura, quais eram as notícias que podiam ser publicadas antigamente?

António Piçarra – As noticias eram tudo que fosse eram contra o governo, tudo o que fosse contra o regime, nos não podíamos dar as cartas a eles ou as cartas não podiam sair lá fora, as cartas eram identificadas por nos e aquelas que também saiam eram também identificadas por nós, tínhamos de ler tudo eles o que eles escreviam, tudo o que fosse a falar contra o regime a carta não seguia e eles não chegavam a saber.

Entrevistadora – Hoje em dia quantos anos tem?

António Piçarra – Tenho 75 anos.

Entrevistadora – Como é que para si ver o Forte da Graça já inutilizado?

António Piçarra – Eu vejo o Forte da Graça com uma tristeza, já venho aqui várias vezes e eu já sabia que estava degradado, mas para mim é uma tristeza muito grande. Para quem aqui fez serviço, e viu tudo impecável que nem ervas havia no chão, e agora chego aqui ao Forte é só desgraças.
É pena, isto estar abandonado praticamente é uma fortificação Europeia de grande nível, é uma das fortificações da cidade de Elvas, tem duas, tem esta e o Forte de Santa Luzia, mas esta é a principal, porque isto é autêntica cidade e vejo isto assim, tanto tempo que estive aqui a fazer serviço, fico completamente destroçado.

 

Entrevista dada à Rádio Campanário


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